terça-feira, 22 de dezembro de 2009

É NATAL!


Por Sandro Neiva

E então é natal! A espécie humana corre afoita e desvairada aos açougues, salões e shopping centers. As mesmas malditas filas por todos os lados! E nada muda! São as mesmas bijuterias de mau gosto, os mesmos caixotes envoltos em papel alumínio, os mesmos vinhos e espumantes baratos. Sempre e sempre o mesmo simulacro dos telefonemas melosos, da autocompaixão culposa em forma de generosidade, da mediocridade em forma de amor ao próximo e da esmola travestida de humanismo.

Chega das terríveis rabanadas e dessa compulsão desenfreada pela gula! Que todos os leitões e perus sacrificados para encher os panelaços e a pança das multidões atormentem a todos nos pesadelos e nas privadas. Não mais à felicidade forjada e à alegria simulada. Chega de odiosas listinhas (in)voluntárias para os porteiros. Chega do famigerado "amigo oculto". Chega de caixinhas de natal. Chega de papai noel que presenteia os ricos e cospe nos pobres. Enfim, chega de tanta hipocrisia, babaquice e nivelamento por baixo.



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Leis contra o abuso da fé pública


Por Sandro Neiva

As pregações religiosas que infestam as televisões do país no horário do almoço são tão repugnantes quanto o lamaçal fedorento de corrupção no qual está atolado o governo do Distrito Federal.

A deplorável histeria coletiva em quase todos os canais abertos merece uma intervenção federal. O Supremo Tribunal deveria criar mecanismos para impedir que qualquer sujeito que se identifique como pastor, padre ou coisa equivalente, possa candidatar-se a cargos políticos e muito menos que receba concessão de rádios e de televisões ou possa dirigir instituições filantrópicas.

Todos os programas televisivos com temática religiosa devem ser considerados propaganda enganosa, semelhante à apologia do crack. O Assédio religioso institucionalizado deve ser tratado na mesma esfera que o assédio sexual ou moral.

Se temos leis tão severas com relação às falsificações de dinheiro e de remédios, deveríamos, pelo mesmo princípio, ter leis igualmente rigorosas no que diz respeito às falsificações da fé, ao charlatanismo da crença e às manipulações emocionais das confrarias do sobrenatural sobre as massas sem instrução.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A farsa dos sabichões


Por Sandro Neiva

Num país cuja população básica é de analfabetos, não é de se admirar que aqueles sujeitos que possuem um conhecimento mediano – que sabem recitar tanto Freud quanto Santo Agostinho – sejam considerados pequenas divindades, gênios, intelectuais.

Um exemplo clássico pode ser o daquele escritor de best-sellers, outrora parceiro de Raul Seixas, que virou até mago! – apesar de ser um caso típico de escritor comum, continua sendo apresentado pela mídia como superdotado, um herói poliglota e um cidadão honoris causa.

Para que esse espetáculo tenha êxito, basta a cumplicidade dos meios de comunicação e, claro, as chaves do poder.

No mundo intelectualóide e da política existe algo ainda pior – o pacto de promoção mútua. Filósofos elogiam filósofos; prefeitos aplaudem prefeitos; doutores defendem doutores, bispos santificam outros bispos e assim se eterniza o espetáculo da diplomacia-vaselina e da politicagem nauseabunda.

Quem tem a mínima vivência acadêmica sabe muito bem como funciona o referido marketing e como agem os intelectuais-políticos ou os políticos-intelectuais para mistificarem-se mutuamente.

Fulano de Tal da UnB convida o Sicrano de Tal da UFMG para “dar uma conferência” e logo depois o Sicrano de Tal da UFMG, em retribuição, convida o Fulano de Tal da UnB para o lançamento de um livro ou para “dar um seminário”.

Nos tais eventos artificiais ou fictícios, não acontece nada e não aparece ninguém. Mas como o que importa para os dois lados é o teatro da vaidade e o Curricullum Lattes, tudo é devidamente encenado, como algo fundamental para a edificação de um Saber maior.

Um filósofo escreve no jornal que outro filósofo é uma genialidade e logo em seguida é retribuído com gratidão no mesmo jornal, como a revelação acadêmica do século. Recebe, então, uma bolsa de pesquisa, honorários, títulos, promoções, passagens etc.

Se não produzem praticamente nada de útil, pelo menos podem desfrutar bons momentos nos hotéis, restaurantes e aviões,– sempre fazendo de conta que estão dedicando a vida a um projeto humanista.

E assim, nessa espécie de pingue-pongue repugnante, certos de que "cumpriram com sua missão", seguem a boa vida. Um pé na universidade e outro na igreja; uma nádega numa prefeitura e outra numa transnacional.

Encantadas, as massas de leitores aplaudem.




quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

As propostas “ecológicas” do Brasil na Conferência Internacional do Clima


Por Sandro Neiva

Fico imaginando a quantidade de “porta-vozes” inúteis que o Brasil enviou para a Conferência do Clima, em Copenhague.

É quase inacreditável que um país como o Brasil – que não dispõe sequer de saneamento básico ou transporte coletivo decente e onde a maioria dos produtos agrícolas estão envenenados por agrotóxico; que ainda não conseguiu livrar-se do lixo, das bactérias e das infecções hospitalares, – ainda insista em levar para a Europa alguma pauta “ecológica” ou proposta que possa ser levada a sério.

Dilma Roussef e sua trupe, com ideias revolucionárias e mirabolantes a respeito do “desenvolvimento sustentável” do Brasil e do resto do planeta.

Como se não tivessem nada a ver com o sufocamento e agonia dos nossos rios ou com a epidemia criminosa de automóveis nas ruas. Até parece que não são os únicos responsáveis pela fumaceira dos ônibus, pela devastação das mineradoras transnacionais e pela falta de esgotos em todos os cantos da América Latina.

Como podem morar em Brasília e cacarejar sobre meio ambiente? A ganância insana os faz abrir as pernas para a destruição de seu próprio bioma virgem. É vergonhosa a subserviência-vaselina às grandes construtoras que edificam condomínios de luxo para os novos ricos. Vide o futuro Setor Noroeste da Capital Federal e o metro quadrado de dez mil reais, numa exuberante área de cerrado. E ainda falam que será um modelo de moradia ecológica. Tá bom. E no rabo, não vai nada?




terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A merda do Lula


Por Sandro Neiva

Liguei a TV e lá estava o Lula, no Maranhão, de novo falando merda. A princípio, não haveria novidade alguma, afinal o presidente vive falando merda mesmo.

Exceto quando ele fala “pobrema”, não tenho grandes preconceitos quanto à versatilidade e alcance vocabular do Ilustre Presidente. Acharia muito legal se ele tomasse umas cachaças a mais e começasse a soltar uns "shit" ou "merde" em reuniões com líderes estrangeiros.

O caso só virou notícia porque Lula literalmente falou “merda” para os brasileiros. Disse algo sobre suas novas estratégias para tirar o povo da merda.

Com todo respeito, boto fé que vai ser tarefa casca-grossa! Ah, boto fé que vai!

Trafegue pelas ruas e calçadas de São Paulo depois de todas essas chuvas, Senhor Presidente, para ver o que acontecerá com teus sapatos caros.

As abas de sua calça importada, caro Luiz Inácio, ficariam lindamente impregnadas da merda transbordada pelo rio Tietê.

Não, Lula, por mais que garganteie pelos palanques que terias sido pobre um dia, não sabes verdadeiramente nada do universo suburbano e nem está a par dos infortúnios coletivos no mundo dos favelados, indigentes e fudidos desse país.

Se tivesses conhecimento, Exmo Presidente, o senhor não falaria tanta merda e faria algo de verdade para tirar as pessoas do fundo do poço do desespero.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A felicidade nos bastidores da reunião em Copenhague


Por Sandro Neiva

Enquanto você está aí comendo seu churrasquinho de acém, depois de mais um dia de labuta, tomando sua cerveja barata ou respirando o ar poluído gerado pelas indústrias, – a cúpula internacional do clima está reunida em Copenhague, na Dinamarca.

A canalhice não se resume ao sujeito que aparece na TV, enfileirado, acenando os braços para as câmeras e jurando que vai resolver os problemas ambientais do planeta. Não. O verdadeiro balaco-baco acontece com a turminha que faz a retaguarda dos Chefes de Estado.

Cada um desses “estadistas” leva atrás de si uma legião de puxa-sacos, bajuladores, carregadores de malas, lustradores de sapatos, lavadores de cuecas etc. São funcionários da diplomacia, parentes, amigos, lobbistas, esposas, amantes, voluntários, médicos, psicólogos, jornalistas particulares, massagistas e seguranças.

A corja lota os hotéis cinco estrelas, os restaurantes e os cafés mais caros. Fingem que estão sempre apressados, que são importantes e que vão mudar as estruturas desta sociedade injusta. E enquanto uns correm de um lado para o outro, com seus crachás, celulares e laptops, – dando sustentabilidade ao teatro da seriedade – as madames deste ou daquele executivo hedonista que conseguiu uma vaguinha na comitiva, chamam um táxi e vão fazer compras nas boutiques dinamarquesas. Além dos perfumes caros, aproveitam também para comprar gravatas e paletós para seus maridos.

Nos bastidores da reunião sobre os rumos globais do meio ambiente, a felicidade é geral e os elogios são mútuos. “Um champanhe francês para comemorar a fala de nosso chefe”! Radiantes e cúmplices na mentira, vão amenizando assim, a culpa pela negligência histórica.

Então chega a noite. Um punhado de euros e dólares no interior do paletó, cartões corporativos e um táxi rumo aos puteiros de requinte. Ao amanhecer, todos estão visivelmente felizes e encontram-se no café antes de reiniciarem o teatro para a imprensa, lá no auditório.

Pois é! E você que está aí, palitando os dentes, depois de devorar seu churrasquinho de acém, o jeito é abrir mais uma latinha de cerveja barata e continuar tossindo seco por causa da poluição. Melhor voltar pro cortiço e acompanhar tudo pela TV. E não adianta xingar. Estas são as manobras clássicas e legítimas dos homens que você próprio colocou no poder e escolheu para lhe representar.



sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Violência a favor da corrupção


Por Sandro Neiva

No dia mundial de combate à corrupção, manifestantes de Brasília foram reprimidos com violência extrema pela Tropa de Choque e pisoteados sem dó pela cavalaria da Polícia Militar. O motivo? Protesto pacífico, sem armas, contra o escândalo de dinheiro na cueca, no paletó, nas meias, nas bolsas, nos bolsos e no cu dos abutres do GDF.

Depois do vendaval de violência é verdadeiramente impressionante ouvir os discursos do Secretário de Segurança Pública, dos comandantes da PM, do governador, dos deputados distritais, dos assessores, dos delegados, das Ongs, da CNBB, da Ordem dos Advogados do Brasil, do Alexandre Garcia e de outros “responsáveis” pela Ordem Nacional.

No embalo de toda essa falação surrealista, é importante considerar que: mesmo que o governo desfile seus cavalos, bombas de gás, escudos e cassetetes pelas ruas, mesmo que crie comissões mil, mesmo que cante de galo, que mistifique o judiciário, que invoque a Constituição, que libere milhões de reais pra todo lado, nada terá sentido algum se não se mudar, o mais rápido possível, o tratamento dado aos corruptos.

Enquanto isso, continua parado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei de iniciativa popular (1,3 mihão de assinaturas) que proíbe a candidatura dos políticos de “ficha suja”.

As férias de noventa dias, as convocações parlamentares extraordinárias remuneradas, os apartamentos funcionais, os passaportes especiais, as passagens, a imunidade parlamentar etc. Tudo isso é motivo de indignação popular, mas não é tudo, diante de todo o surrealismo que ocorre nos bastidores desse doce mundo de privilégios.

O político profissional e os critérios viciosos para sua candidatura; a quantidade assustadora de poderes que lhe é concedido. A dialética bem que poderia seguir nesse rumo. Mudanças radicais. O salário do parlamentar passará a ser o mesmo que recebia em sua atividade profissional anterior; o parlamentar deverá permanecer na cidade pela qual se elegeu trabalhando via internet; e por fim, deverá obrigatoriamente apresentar-se todos os meses à Polícia e à Receita Federal. Poderíamos assim nos livrar da praga da corrupção?


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A lábia maldita dos impostores


Por Sandro Neiva

As enchentes e os desmoronamentos causados pelas chuvas intensas em nosso país têm tido sempre o mesmo enredo. A dor e o pranto das vítimas é estampado perversamente na mídia e então todos ficam repentinamente comovidos. Mas a imprensa cortesã poupa e protege a classe política de sua própria negligência.

Acendem-se velas. Toneladas de alimentos são arrecadados e milhares de cobertores são recolhidos. As hienas parlamentares vão à tribuna e abusam do verbo e das verbas, fazem discursos ao lado dos caixões, criam leis complementares e igualmente inúteis, fazem e acontecem com sua lábia maldita e tudo fica como está.

Os impostores cabotinos fazem acreditar que estão semeando franciscanamente os grãos de uma política social libertária, quando na verdade estão apenas garantindo seus salários fabulosos e perpetuando-se no cenário da politicagem.

É verdadeiramente trágico que esses crocodilos sorridentes consigam fazer tantas reuniões e seguir dizendo as mesmas falácias durante anos, sem, na prática, – apesar de todo o dinheiro que já foi destinado e gasto para essa finalidade – terem conseguido fazer o mínimo daquilo que lhes foi confiado.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Prece da corrupção




Por Sandro Neiva

Oh Senhor Deus todo poderoso! Obrigado por fazer-nos corruptos! Obrigado por fazer-nos entender que só o Dinheiro salva! Oh, Como és poderoso! Depois de ti, só os pacotes de notas de cem reais! Tu que tens todo o poder do mundo, Oh, Senhor Amado, afaste de nosso caminho a Polícia Federal! Tu, em tua Onipotência, sabes que roubamos para o bem das cidades satélites, para a salvação dos milhares de detritos que vivem na Estrutural! Glória, glória e poupe-nos de qualquer punição! Aleluia! Proteja-nos e ajude-nos a cuidar daqueles seres-excrementos que nos elegem e lambem nossos bagos das 8 da manhã às 6 da tarde. Senhor! Ajude também aqueles que nos corrompem e garantem o leite de nossos filhinhos. Oh Senhor, só tu sabes que por nós o mundo seria diferente. Tu, Senhor Todo Poderoso, oh Santo Deus, que conheces nossa miséria e ruína moral, vós que sabeis a origem de nosso mau-caratismo, defendei-nos daqueles que nos invejam e daqueles que querem o nosso mal. Aleluia! Em nome do pai, do filho e do Dinheiro Santo! Amém!


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A gatunagem do governador Arruda e a vitória do Flamengo



Por Sandro Neiva

A roubalheira do mensalão mal acabou de ser sepultada, eis que os gatunos do GDF já tramaram outra, nos mesmos moldes, com o mesmo escárnio e deboche. Enquanto o governador Arruda e sua súcia eram filmados empacotando fardos de dinheiro sujo em tramas mafiosas – o cidadão comum, sem propinas ou salários fabulosos, estava entorpecido pela vitória do Flamengo.

Quem conhece de perto a dialética dos porcos sabe que num amanhã muito próximo, os mesmos gatunos estarão em prantos, pedindo perdão, forjando “mal-entendidos” e jurando por Nosso Senhor Jesus Cristo que irão se regenerar. Mas quem guarda na memória o semblante hipócrita dessas hienas, sabe que a recuperação de criminosos de alta periculosidade é praticamente impossível.

As populações, aos pedaços, não sabem o que fazer para interromper o processo corrosivo de corrupção e canalhice em que estão mergulhadas. A reeleição secular de corruptos, o delírio de imaginar que aquele candidato ou aquele partido podem ser melhores ou diferentes que os atuais, a passividade crônica e o futebol são os instrumentos tradicionais desse autoaniquilamento e dessa Idade Média que insiste em não terminar.

Enquanto isso, onde estariam os nossos filósofos de turno, comprometidos com a verdade? E os acadêmicos de plantão? Para onde foram os tais homens que dedicaram suas vidas para teorizar sobre os pobres e desgraçados do planeta? Onde está a imprensa cortesã? E os anarco-punks incendiários, onde estão? Onde estão os homens que têm bagos nesse país?

Na ausência desses personagens, a classe média segue obesa e triunfante…

Se a falcatrua tivesse acontecido no Japão, ocorreria suicídio em massa da classe política. Se houvesse acontecido na Coréia do Norte, os estudantes e ativistas já teriam incendiado o palácio do governo. Mas aqui por nossas paragens é mais cômodo comemorar a vitória do mengão.

Enquanto os próximos capítulos e episódios dessa minisérie estão sendo montados, recibos, números de contas, escrituras de fazendas, mansões nos Lagos Norte e Sul, prédios no Noroeste, documentos e pistas vão sendo ocultadas e jogadas para debaixo do tapete. A raça dos cães é a mesma, só mudam as coleiras.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Selo do Canadá lança novo LP da banda BESTHÖVEN


Por Sandro Neiva

o LP Seeking Shelter in the Darkness of War – da banda BESTHÖVEN – já havia sido lançado no exterior há um ano pelo selo canadense Aph Records e finalmente chega ao Brasil. Doze sons destruidores do mais puro D-Beat-da-Morte – sendo dez totalmente inéditos, mais regravação de Medo da Guerra (som de 1996, presente na demo Os Mortos Insepultos) e ainda uma cover do grupo sueco DISCARD para a música Death Race (demo de 1985, Sounds of War).

O álbum é confeccionado em papel grosso e no encarte há todas as letras, informações extras e ainda um superposter da BESTHÖVEN, em tamanho 60 por 45 centímetros. Artigo de luxo, que enche os olhos de colecionadores e aficcionados do mundo inteiro. O problema é que das 50 cópias combinadas, o selo do Canadá disponibilizou apenas 20 para o Brasil.

“Esse LP é especial para mim pois foi todo planejado e trabalhado em cima de infuências específicas de três discos: Why 12 (Discharge); Once The War Started (Disclose); e Warcry 12 (Disaster), além, é claro, das demais influências naturais e já visíveis no trampo da banda”, diz o multiinstrumentista Fofão Discrust – mentor e único membro definitivo da BESTHÖVEN, ­– diretamente do Gama (DF).

O músico gamense informa ainda que em breve entrará em estúdio para gravar um EP tributo às antigas bandas hardcore da Suécia e também lançará um clip-promo do disco pela PERVITIN FILMES. Vem mais D-Beat-da-Morte por aí!

Entre em contato diretamente com Fofão e garanta seu Long Play por 30 lascas. Lembre-se que são apenas 20 cópias para o Brasil inteiro, portanto, seja rápido!

Email: discordiarecords@hotmail.com
Fone (61) 9101 2645
Para curtir BESTHÖVEN na internet acesse
www.myspace.com/besthoven





segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pervitin Filmes lança DVD com SUICIDAL TENDENCIES ao vivo em Brasília

Por Sandro Neiva

Atenção Suicyco-maniacs brasilienses e demais fãs da banda norte-americana de skate-punk SUICIDAL TENDENCIES. A Pervitin Filmes acaba de lançar em DVD a apresentação do grupo de Venice, tocando ao vivo em Brasília, durante o Festival Porão do Rock de 2008. O DVD tem 65 minutos de duração, 14 faixas, incluindo
clássicos como “Send Me Your Money”, “How Will I Laugh Tomorrow”, “Possessed To Skate” e “You Can’t Bring Me Down”.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

"Ouro de Sangue" (Murro no Olho)

Música que a banda Murro no Olho (DF) compôs para a trilha sonora do filme "Ouro de Sangue". O videoclipe de 2008 mescla imagens da banda punk com cenas da degradação ambiental causada pela mineração de ouro a céu aberto em Paracatu (MG).

"Chuva de Horror" (Murro no Olho)

Videoclipe da banda punk brasiliense Murro no Olho, realizado em 2005; faixa do CD demo "A Nova Catacumba"




Murro no Olho - Gravação do CD "A Nova Catacumba" (2005)

Parceria Pervitin Filmes (DF) & Camarela Stúdios (MG)

Por Sandro Neiva

Uma parceria da Pervitin Filmes com a produtora mineira Camarela Stúdios, do cineasta Rodrigo Valle, resultou no vídeo “BRASIL 2020: I’M IN: TÔ DENTRO”. A ideia surgiu a partir de um protesto feito por um jornalista, ativista de mídia independente, em defesa das águas e montanhas de Minas Gerais, durante conferência internacional de meio ambiente, que aconteceu em Belo Horizonte no mês de agosto. Na ocasião, o governador Aécio Neves, fazia lobby às autoridades brasileiras e estrangeiras, em sua campanha a Presidente da República. Este vídeo mostra a verdadeira face do governo de Minas e sua política suja, que entrega as riquezas hídricas e naturais do estado às mineradoras transnacionais.


Ouro de Sangue


Documentário que aborda as consequências socioambientais da mineração de ouro em Paracatu (MG) desde 1987. A transnacional canadense que atua na cidade conseguiu junto aos órgãos ambientais legalmente responsáveis a aprovação de um plano de expansão da mina por mais 30 anos. Aos paracatuenses sobram enormes feridas abertas pelas lavras a céu aberto, venenos químicos, poeira tóxica, população enferma e mortes. Há falas de vizinhos da mineradora, um médico, um geólogo, um Procurador de Justiça Criminal e um diretor da mineradora. Trilha Sonora com Murro no Olho, Amorphis e Type O’Negative. Em 2008, “Ouro De Sangue" participou da 35ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia, realizada em Salvador e do Festival de Cinema Socioambiental, em Nova Friburgo, estado do Rio de Janeiro. Em 2009, o documentário participou do III Festival de Cinema na Floresta, em Alta Floresta, amazônia matogrossense. (Pervitin Filmes – 44min – 2008).

ASSISTA AO FILME NA ÍNTEGRA, EM 5 PARTES E LEGENDADO EM INGLÊS:



Dona Negra: 104 anos de trabalho e devoção


Do alto de seus 104 anos, Maria do Carmo da Silva Neiva – ou Dona Negra, como prefere ser chamada – se considera “feliz demais”. Ela impressiona não somente pela longevidade, mas pela lucidez e precisão de raciocínio, que lhe permitem emitir com facilidade conceitos filosóficos de vida e a desenterrar da memória fatos remotos, a maioria ocorridos em sua histórica Paracatu (MG). Extremamente religiosa, ela descreve com detalhes os interiores de igrejas há tempos destruídas pelo falso progresso e os processos políticos que desencadearam as demolições. Dona Negra é a própria memória viva de sua cidade. (Pervitin Filmes – 12 min – 2008)


* Dona Negra faleceu um ano depois do lançamento desse documentário, mas chegou a se ver na tela, ficou emocionada e se disse “feliz demais”. Descanse em paz!



Cólera

DVD com 15 faixas de uma das bandas punk mais importantes do Brasil. Show gravado com duas câmeras, em Brasília /DF no dia 02 de junho de 2006, durante o Festival Porão do Rock. (Pervitin Filmes 2008 - 49 min.)

Rattus

Apresentação histórica da banda punk finlandesa no Teatro Galpãozinho do Gama. Entrevistas em finlandês sem tradução que não servem para nada e imagens um tanto nervosas. Show à parte dos punks locais. (Pervitin Filmes 2007 - 43 min)

Garotos Podres/Inocentes

Split-dvd imperdível com duas das mais importantes bandas da primeira leva do movimento punk no estado de São Paulo. Gravado ao vivo no festival Porão do Rock (Brasília/DF) em 2007. Som impecável e entrevista hilária com o vocalista Mau, dos Garotos Podres. (Pervitin Filmes 2007 - 59 min)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Luz, câmera… cinema eleitoreiro em ação


Por Sandro Neiva

Em noite de gala na Sala Villa Lobos, do Teatro Nacional, teve início ontem o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme “Lula, o filho do Brasil”, do diretor Fábio Barreto, abriu a programação. O longa-metragem conta a história do metalúrgico que se torna presidente. E mais uma vez, você, pobre cara-pálida, não foi convidado.

Lula também não compareceu. Assistirá ao filme longe da plateia, quando chegar de Roma, mas o governador Arruda, a legião de chupa-tetas do GDF, deputados, senadores, ministros, secretários… estes tiveram poltronas numeradas e uísque escocês mais que garantidos. Dizem que até o Obama quer uma cópia do filme, que estará em cartaz nos cinemas brasileiros a partir de Janeiro de 2010.

Mas e quanto aos metalúrgicos, operários de São Bernardo do Campo, desempregados, fudidos, viciados, maltrapilhos, pé-rapados e os verdadeiros filhos do Brasil? ah… estes foram excluídos da festa da sétima arte em conluio com o poder. O governo federal recebeu 800 convites. A Sala Villa-Lobos tem capacidade para 1.322 pessoas. Deve ser essa a nossa tal democracia… ah, entendi… 2010 é ano de eleições presidenciais e, por mera coincidência, em todas as bancas de camelô do país haverá uma cópia pirata do filme, disponível a cinco reais.

Este é o cinema feito com dinheiro do Ministério da Cultura; o cinema que está na mão da família Barreto há décadas; é o cinema eleitoreiro-brasileiro em ação. E os convites vão para os endereços da mesma corja-de-vida-ganha, que paga R$ 10 mil pelo metro quadrado e R$ 500 mil por um apartamento de merda no futuro Setor Noroeste.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O aborto burocrático de Oscar Niemayer‏



Por Sandro Neiva

Viver num cubículo de entrequadra comercial no centro de Brasília me faz refletir o quão abusiva e excludente é a arquitetura desenvolvida pelo senhor Oscar Niemayer. Essas moradias minúsculas, com janelas que não deixam passar mais do que a cabeça de seus inquilinos, são os indicativos maiores que a Capital Federal não passa de um equívoco urbanístico de primeira grandeza; um aborto burocrático que tem garantido aos gatunos a legitimação de uma riqueza sem origens e sem fundamento.

As pessoas que conseguem colocar os olhos e o intelecto para além do planalto, da planície e do Poder sabem que este lugar está longe de ser o paraíso que alguns bicho-grilos insistem em gargantear. “Ai, meu Deus! Mas aqui tudo é calmo, espaçoso, verde. A qualidade de vida é um sonho. A lua parece nascer logo ali na Praça dos Três Poderes. Tudo aqui é Zen...”

Com suas trezentas e tantas seitas a cidade transborda energia cósmica! Talvez os discos voadores estejam dando razantes rasteiros sobre a Esplanada, como se quisessem convencer a todos, que ali, no paraíso das politicagens, surgirá a cidade-modelo para o Terceiro Milênio.

O fato é que neste engendro monstruoso planejado para nutrir-se das entranhas de seus próprios habitantes, a teologia é sempre mais importante que a antropologia e Niemayer é quase um Deus.

Mas para nós – gente que nunca levou a sério os sonhos de Dom Bosco, que nunca considerou Juscelino um estadista e que jamais acreditou que o Arruda pudesse governar diferentemente do Roriz ou do Cristóvam, – o velho Oscar será sempre o profissional que jamais trabalhou para as classes desfavorecidas e nunca voltou os olhos para o mundo despedaçado dos pobres. O que fez de verdade foi servir aos poderosos e construir edifícios para o lucro fácil de uma elite febril e gananciosa. Nada além disso.


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Sorria, você está sendo manipulado!




Por Sandro Neiva

Assistimos - meio embasbacados e atordoados - ao triunfo absoluto da máquina política sobre nossas mentes, nossos desejos e nosso próprio tempo. De acordo com a má fé das regras pré-estabelecidas pelos políticos, pelas religiões e pela imprensa, experimentamos a falsificação de nossas paixões.

Enquanto estávamos bêbados ou hipnotizados, o Estado se travestia de benevolência. Fez-de protetor dos oprimidos, deu voltas e rodeios, maquiou-se, passou batom nos lábios, purpurina nos olhos, siliconou os seios, auto denominou-se liberal, ético, progressista, cristão e defensor máximo dos direitos humanos. Tudo em nome de uma democracia platônica e fictícia.

Enquanto esbravejávamos, de pilequinho nos botecos, o monstro estatal concretizou a dominação. Sobreviveu a todas as maldições da turba desarmada, a todos os discursos libertários, a todas as greves e idealizações revolucionárias. No fundo, o mesmo impostor brutal de sempre.

E não arredou um passo. Não apenas sobreviveu, mas reatualizou seus truques de dominação e se fez mais Onipotente, derrotando e escravizando-nos de maneira absoluta.

Quer uma prova de nossa escravidão? Lembre-se que somos OBRIGADOS a pagar impostos e tributos. Estou sendo radical? Como assim? Esqueceu-se da água, luz, telefone, condomínio, Imposto de Renda, ISS (como autônomo e como funcionário), CPMF, IPTU, IPVA, CRP, estacionamento, plano de saúde e até licença para exercer a profissão? Faça as contas e verifique o que isso representa no seu pífio rendimento anual.

Sem mencionar os impostos indexados à comida, à gasolina, aos remédios, aos livros e até ao caixão mortuário que te levará desta vida para sempre. Sorria, você está sendo manipulado!



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Zine Oficial lança coletânea com 24 bandas do underground brasiliense





Por Sandro Neiva

O Zine Oficial, capitaneado por Tomaz André, juntamente com o vocalista Felipe CDC, - em nobre e inovadora empreitada, - lançaram um CDr-coletânea com 24 bandas autorais do Distrito Federal e Entorno. Atitudes orgânicas e positivas como essa oxigenam a cena local do bom e velho rock’n’roll, unem o universo underground e garantem a diversão e satisfação pessoal dos historicamente oprimidos. As próprias bandas bancaram a gravação do disco, investindo 50 reais cada uma delas, para a compra de CDs virgens, gastos com serigrafia e masterização, realizados no ME Estúdio, em Taguatinga. Diversos estilos do rock estão presentes na coletânea, que está sendo vendida ao preço simbólico de DOIS REAIS. É isso mesmo! Para adquirir o disco você desembolsa apenas duas lascas, menos que uma cerveja. Lindo demais, né? A arte gráfica também merece destaque, com fotos e release de todas as bandas, além do desenho de um roqueiro regando um vaso que floresce música. Confesso que cheguei a ficar arrepiado quando escutei a faixa três, rockão da banda The Morffus. Mas tem vários outros sons legais. A dupla dinâmica Tomaz André e Felipe CDC ainda promete o Volume II. Parabéns e long live rock!

Entre em contato com zineoficial@gmail.com ou www.zineoficial.com.br e garanta seu disco.

Bandas que participaram da coletânea:

1) Barbarella
2) Luiza Fria
3) The Morffus
4) Trampa
5) Kábula
6) Faces do Caos
7) Canibais
8) Aversão
9) X-granito
10) Os Maltrapilhos
11) Prisão Civil
12) Perigo ao Poder
13) Totem
14) Tekila Hell
15) Black Buldog
16) Into the Dust
17) 7 Pele
18) Murro no Olho
19) Podrera
20) Mob Ape
21) Seconds Of Noise
22) Bruto
23) Moretools
24) Device

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Seu colega quer sua cabeça




Por Sandro Neiva

Tão ou até mais grave que o desemprego que assola o Brasil, é o assédio moral no ambiente de trabalho. O acosso ou assédio moral refere-se à pressão, à desqualificação, à perseguição, ao amedrontamento, às ameaças e ao abuso de poder que trabalhadores sofrem diariamente nos locais de trabalho.

Seja no âmbito dos serviços públicos, instituições de ensino ou das empresas privadas, o problema é grave; não é sequer mencionado pelos políticos e pode causar uma série de doenças pisicossomáticas nas vítimas, tais como a depressão e até suicídios.

O tema tem sido tratado com rigor pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que lançou no Canadá a publicação “Seu colega quer sua cabeça”. No texto, são identificadas as principais características desses agressores:

"... seres brutais, que desde a infância cultivam a inveja, destruindo a dignidade dos demais, voltando sua tirania para pessoas emocionalmente frágeis e que não podem permitir-se deixar o trabalho; empregados ambiciosos e incompetentes, que apropriam-se das ideias de colegas que consideram rivais, com a finalidade de conseguir ascensão ou se auto-promoverem intelectualmente perante os chefes; geralmente ocultam seus erros difamando companheiros de trabalho".

Esse tipo de conflito ocorre não somente entre chefes e subalternos, mas entre os funcionários de modo geral e tem transformado os ambientes de trabalho em verdadeiros focos de neurose coletiva e destruição mútua, comprometendo, além da saúde e da realização pessoal, os próprios serviços.

O silêncio e a negligência tornam o problema cada vez mais grave e fora de controle. Apesar das ações estéreis dos Departamentos de Recursos Humanos e do blá-blá-blá dos administradores, não há no Brasil nenhum critério para a ocupação de cargos de chefia e grande parte dos funcionários são desviados de suas verdadeiras funções.

Urge que os governos estabeleçam programas de prevenção contra o problema. Seria importante se os candidatos, no meio de tanto palavreado inútil, conseguissem lançar o olhar para bem mais além, quando se referem ao empreguismo - pois o problema não está apenas no desemprego, mas também no emprego pelo qual o trabalhador, em troca de uma remuneração miserável, é obrigado a submeter-se a humilhações, relações falsas e condições irracionais.



sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Entrevista com a banda Ratos de Porão (SP)


Por Sandro Neiva

Julho de 2001. RATOS DE PORÃO - a banda punk mais agressiva do planeta - toca em Brasília para cerca de 40 mil pessoas, no Festival Porão do Rock. Na época, a formação era Gordo, Jão, Boka e Fralda. Doente e mais obeso do que nunca, o vocalista João Gordo precisou de uma injeção no nervo ciático antes de subir ao palco. Na execução de várias músicas, teve que cantar sentado em uma cadeira. Lembro como fiquei impressionado com a pança, os pés inchados e a aparência geral de um dos caras que me ensinaram a gostar de punk rock. Cheguei a pensar que ele estava perto de bater os Ked’s. Como sabemos, João Gordo reduziu o estômago, virou papai e tornou-se figurinha fácil na TV. O grupo lançou em 2009 o documentário “Guidable, a verdadeira história do Ratos de Porão” e segue em frente.

Havia umas 40 mil pessoas no show desta noite. Vocês gostam de tocar para grandes plateias?
JOÃO GORDO – Eu gosto mais de tocar em lugarzinho pequeno, tá ligado? Soa mais aconchegante, é mais legal. Festival grande assim é foda, cara. Fica muito separado a coisa. É o público lá longe e você cá encimão. Tudo muito longe. Quer dizer, é legal porque é muita gente. Mas não é muito aconchegante, tá ligado? Quando o público fica mais próximo a coisa é muito mais louca.
BOKA – O Ratos de Porão é uma banda acostumada a tocar em qualquer lugar, cara. Já tocamos várias vezes em grandes festivais e tocamos também no chão, sem palco. Com o Ratos não tem disso. Tocamos para milhares de pessoas ou para um público composto apenas por fãs, como outras vezes, no Teatro Garagem, por exemplo, aqui mesmo, em Brasília. Tecnicamente, eu prefiro tocar em locais fechados, mais perto do público e de toda a energia. Essa energia se perde um pouco quando o show é ao ar livre. O ideal mesmo, em termos de equilíbrio, é tocar para um público de 500 pessoas. Mas também tanto faz. É nossa vida, nosso trabalho. Sempre tem graça.

Fralda, é verdade que o seu primeiro show com o RDP foi no exterior? como entrou na banda?
FRALDA – Meu primeiro show com o Ratos foi lá na gringa, em Portugal. Foi num festival para 32 mil pessoas em que tocaram The Cure, Therapy, Sonic Youth e uma pá de bandas. Eu ainda não havia feito nenhum show com a banda no Brasil e já peguei logo uma turnê de oito shows no exterior. Na verdade, meus dez primeiros shows foram meio desastre, meio foda, tá ligado? Só mais na frente eu fui pegando o jeito e me entrosando.

Boka, você entrou na banda em 1991, logo depois do lançamento do disco Anarkophobia. Foi uma parada que deu certo, não?
BOKA – Eu já era amigo dos caras desde a época do Psycho Possessor, minha banda anterior. A gente fazia umas Jam Sessions juntos. Eu me integrei legal. Não é qualquer cara que tem a manha de passar 70 dias espremido num furgão, como já fizemos várias vezes, nas turnês pelo exterior. Tem que haver muita paciência e respeito e a gente consegue lidar bem com isso.

O Guerra Civil Canibal foi o primeiro disco totalmente independente do Ratos, e saiu pela Pecúlio Discos (cujo proprietário é o baterista Boka). Mas saiu também um compacto pela Monstro Discos. Como foi a negociação?
BOKA – Sim. Esse disco saiu pela Pecúlio em CD e um compacto de 7 polegadas pela Monstro Discos, de Goiânia. É um pessoal que já tem tradição em vinis coloridos e é super gente fina. Chegamos pra eles e falamos: “o disco está em suas mãos”. Rolou tudo de forma tranquila. Foi também uma forma que encontramos pra não termos tanto trabalho.

O RDP foi uma das primeiras bandas a adionar o Hardcore ao Metal, criando o chamado Crossover. Isso nem sempre é bem visto por fãs mais conservadores. O que vocês pensam a respeito?
JOÃO GORDO – O RDP foi a primeira banda a fazer isso. Aqui no Brasil, foi a primeira. Quanto a esse tipo de pensamento, esses caras que se fodam, meu! Pau no cu desses punk’s radicais metidos a donos do mundo. São uns idiotas que pensam que sabem tudo, meu!
BOKA – Nós evoluimos musicalmente. Acrescentamos vários elementos ao nosso som, não só o simples hardcore, mas nunca perdendo aquela pegada característica. Sempre estivemos antenados no underground. Cara, quem gosta da banda é porque realmente se identifica. Nós não estamos pedindo pra que ninguém goste do Ratos de Porão. Mas conosco rola algo engraçado: em nossos shows não vai ninguém de curioso. Só tem fã de verdade em todos os shows. Somos uma banda 100% independente que consegue certo espaço na mídia, que outras bandas da mesma linhagem não conseguem. Isso gera inveja.

Quantas vezes o Ratos de Porão excursionou pela Europa e Estados Unidos?
GORDO – Ah, não sei. Um monte de vezes, cara! Desde 1990 a gente viaja para o exterior. Nos Estados Unidos é diferente pra caramba. É outra história, meu. Os shows lá são de fato o underground porque os caras querem ser de fato o underground. É show no chão, cara. Não tem produção nenhuma de palco, nada. Boteco, saca? Muito louco isso.
BOKA – Perdi a conta de quantas turnês a banda já fez no exterior. Na Itália nós tocamos em um monte de squats. Mas lá esses locais são enormes, para cerca de 700 pessoas. O punk’s italianos e franceses são uns pirados. Nos Estados Unidos tocamos no CBGB.

Vocês também tocaram em lugares obscuros como Eslovênia e Croácia. Qual o lugar que acharam mais louco?
JOÃO GORDO – A gente tocou muito numas ilhas e foi muito louco. Ilhas tipo Maiorca, Ilhas Canárias, Teneriff, Eslovênia, Croácia, República Tcheca. Uns lugares assim, bem difíceis de ir, tá ligado? Pra gente é bem bizarro esse tipo de lugar, saca? Nós temos fãs no mundo inteiro, meu. Na Itália, França, Portugal e Espanha tocamos em centros culturais enormes. Na França e Itália tinha coisa bem punk mesmo.
BOKA – Cada país tem uma onda diferente, mas o leste europeu é muito fodido. Os fãs são muito loucos. Não no sentido violento, mas no sentido de amar a banda.

Dizem que em alguns países como a República Tcheca, os punk’s cantam as músicas do Ratos de Porão em portugês. Qual a reação de vocês ao observarem isso?
BOKA – É lógico que quando vimos aquilo pela primeira vez foi fantástico, muito engraçado, mas hoje achamos até normal.
JOÃO GORDO – Eles sabem cantar o refrão, né cara? É legal e meio que compensador, entende? Você saber que uns caras do outro lado do mundo estão cantando uma música que você fez lá na sexta-série. Isso é do caralho, meu!

Como é o esquema de produção dessas turnês? As gravadoras já bancaram alguma coisa?
BOKA – Gravadora nenhuma jamais bancou nenhuma excursão nossa para o exterior. Juntamos grana para as passagens aéreas, acertamos tudo, alugamos uma van, e nós mesmos agendamos os shows. Nos viramos como podemos. Cartão de crédito, cheque emprestado, qualquer coisa vale. Nós damos nosso jeito.
JOÃO GORDO – Gravadora não banca nada, véio. Só tem pilantra nesse meio. Só o Boka é honesto.

Quanto custa uma turnê dessas? Dá pra sobrar algum?
JOÃO GORDO – Sobrar, sobra. Tem muito gasto. É gasto pra caralho, meu. Mas quem manja de turnê mesmo é o Boka aqui, cara. O Boka é o empresário do rock. Baterista, pai de família, empresário bem sucedido, ex-maconheiro e surfista, ainda por cima.
BOKA – Uma turnê assim custa em torno de 30 a 45 mil. Apesar dos gastos, dá pra sobrar alguma coisa.

Vocês já passaram pela Roadrunner, Cogumelo, Baratos & Afins, Paradoxx. Afinal, gravadora não vale mesmo a pena para uma banda como o Ratos?
BOKA – A parceria com outras gravadoras é muito mais interessante pra nós porque temos nosso trabalho distribuído mundialmente com total controle. A Alternative Tentacles (selo de Jello Biafra, ex-Dead Kennedys) lançará nosso ultimo disco em vinil de 10 polegadas, que é um formato superlegal e diferente. A Paradoxx foi a única gravadora que fez um bom trabalho de distribuição e os caras são mais sérios. Na Roadrunner foi foda. Eles impuseram que nossos discos também deveriam sair com letras em inglês. Na minha opinião, o Just Another Crime é nosso pior trabalho. Eu tinha pouco tempo de banda e havia pressão da gravadora. A única música desse disco que a gente leva em shows é SuposiCollor, que também é a única em português.
JÃO – Gravadora grande é uma puta mafia, meu.

Vocês devem encontrar muita gente louca nessas turnês. Rolam muitas drogas e groupies?
BOKA – Se você quiser, rola com certeza. Eu, como baterista, preciso de preparo físico e concentração. Não dá mais pra ficar zoando tanto, como antigamente. Estou mais quieto. Quanto às garotas, nós nem somos uma banda que tenha o perfil para esse tipo de coisa. Eu sou casado há muitos anos, o Jão também. No início da década de 1990 todos nós estávamos muito mais abertos a tudo isso.

Depois de tanto tempo tocando e viajando juntos, já deve ter rolado umas tretas e discussões, certo?
BOKA – É que nem uma família, cara. É lógico que rolam discussões. Num dia está quebrando o pau, no outro se arrepende, se respeita e está tudo bem de novo. É complicado. Não é para qualquer um, cara. Tem que haver paciência, saber respeitar a opinião e o direito do outro.

Jão, você que é o único membro da formação original, me diz, quais as diferenças básicas da cena punk que surgiu em São Paulo em 1978 e o que rola hoje em dia?
JÃO – Como cena musical, ainda existe e é bem forte. Agora, como movimento, eu diria que é meio dispersivo. Tudo é muito equivocado, saca? Não há união para se construir um lance melhor. Sei lá, às vezes é mais fácil ficar falando mal do Ratos de Porão, por exemplo, do que tentar mudar alguma coisa.

Em 1983 as bandas punk’s de São Paulo, incluindo o RDP, foram tocar no Circo Voador, Rio de Janeiro. Esse episódio repesentou a primeira tentativa de organização do movimento em nível nacional. Gostaria que você comentasse o episódio.
JÃO – Eu era muito moleque, estava indo ao Rio pela primeira vez e fiquei muito louco. Fazia um puta calor de rachar, o Circo Voador estava lotado e eu pirei, né, velho? Na época, a gente não tinha noção do lance histórico, que aquilo iria se tornar um acontecimento histórico.

Tenho a impressão que a banda está mais clean. Todos pararam de fumar cigarro, né?
BOKA – Com certeza. Estamos mais sossegados. O Gordo não está muito bem de saúde. Eu particularmente, não gosto de cigarro.

Jão, li na internet um artigo chamado “o movimento punk no Brasil”, assinado pelos Ratos de Porão. O texto termina com a frase: “Os punk’s voltaram para a periferia como todo filho pródigo volta ao lar”. Pode comentar a respeito?
JÃO – Eu sempre morei na periferia. Então eu não estou voltando porque nunca saí, né, velho? (risos). Moro na região de Pirituba, que é periferia de São Paulo.



quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A fútil felicidade dos emergentes




Por Sandro Neiva

Corretores, atravessadores, donos de imobiliárias e outros especuladores deste ramo profissional estão eufóricos na Capital da República. O futuro Setor Noroeste — apesar de ser ainda uma enorme área de cerrado virgem, já bate recordes no preço do metro quadrado.

Ali, no novo bairro que está sendo construído para uma suposta elite, todos os apartamentos são de três ou quatro quartos, com área entre 127m² e 318m². O imóvel mais barato custou R$ 942 mil e o mais caro — uma cobertura privativa — saiu por R$ 2,5 milhões. Tudo foi comercializado em uma semana pela Brasal Incorporadora e pela Lopes Royal Empreendimentos.


Lúcio Costa — a eterna vaca sagrada da urbanística — previu o Setor Noroeste no documento “Brasília Revisitada”, de 1987. Desde então, os empresários do mercado imobiliário estão nas esquinas com mapas, folders, ilustrações futuristas, fichas de inscrição e claro, a tabela de preços.

O preço dos imóveis – mais alto que nos arredores de Paris ou na orla de Maceió - já seria uma afronta à inteligência de qualquer ser pensante. Mas ninguém dá um pio. Todos estão felizes por poder comprar o seu apartamentozinho de merda em 20 ou 30 anos, mesmo que depois tenham que dar o cu nas esquinas para poder pagar as prestações e o condomínio.

Gatunos vitimados pela gatunagem; presas fáceis de qualquer máfia que venha a prometer-lhes que, da noite para o dia, irão ascender ao pódio da classe média alta, com direito a status de novo-rico. Sacam o celular do bolso do paletó e contam a novidade para os amigos. Estão radiantes. Isto é a felicidade para esse tipo de idiota.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Mais um imposto absurdo



Por Sandro Neiva



O Poder em Brasília segue delirante. Não bastasse a proposta para o ressurgimento da famigerada CPMF, o governo federal desta vez pretende criar um imposto sobre os livros. Por meio da Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (CIDE), pretende-se impor um sobrepreço que incide sobre editoras, distribuidoras e livrarias. O efeito é óbvio: livros mais caros ao consumidor.


O deboche embutido na medida governamental é explícito. De acordo com a proposta, o dinheiro arrecadado seria usado, acreditem vocês, em programas de incentivo à leitura! Incoerência e cretinice absurdas. Ora, qual seria maior incentivo à leitura que baratear o preço dos livros?


Não é preciso muita astúcia para perceber que o hábito da leitura – já tão combalido no Brasil atual - diminuirá, ao invés de aumentar, se depender dos burocratas do planalto central. Num país de milhões de analfabetos, no qual o próprio presidente não é muito afeito à leitura, literalmente paga caro aquele que ainda ousa ler.


Por falar no presidente, na semana passada Lula causou espanto nas rodas intelectuais da corte ao afirmar que estaria lendo “Leite Derramado”, último romance de Chico Buarque de Holanda. Nada mais apropriado. O leite derramou faz tempo.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

O enxofre do diabo




Por Sandro Neiva



Há dez anos o Brasil era o maior produtor mundial de açúcar e mais da metade da produção era destinada ao mercado exterior. Hoje, nem a Europa nem os Estados Unidos querem saber do açúcar brasileiro. O motivo? quantidades excessivas de enxofre, consideradas não compatíveis com a saúde dos consumidores europeus e norteamericanos.


Algumas indústrias já começaram a abandonar a utilização de enxofre no processo de branqueamento do açúcar, substituindo-o pelo ozônio. Além da garantia de um produto mais saudável - tanto para consumidores quanto para as pessoas envolvidas na fabricação -, o açúcar ozonizado alcança um maior valor de mercado.


É intrigante o descaso governamental a respeito do enxofre – elemento químico venenoso indicado pela letra S e pelo número atômico 16. Na antiguidade, os chineses utilizavam o enxofre na produção da pólvora. Mais tarde foi condensado na cabeça dos palitos de fósforo, usado no processo de clareamento do açúcar e até na fabricação de baterias.


Assim como os mineradores e as lideranças governamentais têm conhecimento do poder letal do arsênio na poeira nossa de cada dia, os usineiros e as tais lideranças governamentais também sabem do poder letal do enxofre no cafezinho nosso de cada dia. É muito provável que saibam também que altas concentrações desse produto vulcânico em reação com a água dos pulmões provocam a formação de ácido sulfúrico, causando hemorragias que podem mandar o sujeito para o inferno. A propósito, seria esta a origem da crendice folclórico-popular de que o inferno e o diabo federiam a enxofre?


Basta fazermos um exercício de coerência dedutiva e não é difícil imaginar o perigo que deve estar embutido nos molhos, enlatados e demais porcarias à venda em qualquer esquina. Pelo menos, a partir de agora, sabemos que além do excesso de açúcar que as garçonetes energúmenas costumam colocar nos nossos sucos e cafés, há também um excesso criminoso de enxofre. E o pior, com a conivência de órgãos estatais como a Anvisa - Agência Nacional de Vigilância Sanitária.


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Nós contra nós mesmos












Por Sandro Neiva

Sobrevivemos em um conjunto de imagens com as quais somos empurrados a identificar-nos. Atuamos cada vez menos por nós mesmos e cada vez mais em função de abstrações que nos dirigem segundo as leis do comércio e do mercado. Nós contra nós mesmos, cordeiros domesticados prontos para sermos etiquetados. Seres ruminantes, que renunciam ao prazer de viver realmente de acordo com as próprias convicções. Neste cenário desolador, cada um representa aquilo que não vive e cada um vive falsamente aquilo que não é. É por isso que nos dias atuais - o papel e a função de cada indivíduo em promover o desenvolvimento da sociedade como um todo – não passa de uma enorme mentira deslavada, de um cinismo sem fim.



quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A imbecilização generalizada do horário nobre




Por Sandro Neiva

A televisão é o veículo da imbecilização generalizada e da mentira oficializada. Ela não somente nos afasta dos problemas reais da vida como também empurra todas as pessoas a identificarem-se com o vil, o mesquinho e o irreal.

Entorpecidos pelo tal horário nobre, colocamo-nos abstratamente no lugar de um chefe de Estado, uma estrela pop ou uma vítima de estupro. Enfim, reagimos como se não fôssemos nós, mas outra pessoa.

As imagens dos telejornais, novelas e comerciais que nos dominam, representam, acima de qualquer coisa, o triunfo daquilo que nós NÃO somos. É a vitória daquilo que sufoca nossos anseios e nos distancia de nós mesmos.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O espetáculo da estupidificação coletiva









Por Sandro Neiva

A educação das massas no Brasil é ministrada por uma dúzia de apresentadores e apresentadoras de televisão. Não é difícil perceber uma linguagem subterrânea na boca e nos trejeitos dessas hienas maquiadas, a serviço da moral vigente e do status quo.

Enquanto segue em cartaz o espetáculo da estupidificação coletiva, o efeito colateral mostra-se devastador e torna-se visível nos preconceitos, gestos condicionados e hábitos de consumo pequeno-burgueses, que permeiam nossa vida cotidiana.

Explicitamos nossa estupidez no trabalho, no trânsito e em todas as situações nas quais exercemos uma atividade que não foi posta a serviço de nosso bel prazer de nossa soberania pessoal.




terça-feira, 20 de outubro de 2009

MARCELO D2, queimando tudo até a última ponta!




Por Sandro Neiva

Marcelo Maldonado Gomes Peixoto, ou simplesmente Marcelo D2, é hoje considerado um dos maiores nomes da música nacional. Absolutamente integrado às frescuragens típicas do mainstream, o artista vai ao Faustão, ao Gugu, faz turnê internacional e seu rap-samba-rock é tilha sonora de novela global. Mas a vida nem sempre foi uma deliciosa larica. Em 1997, quando ainda era líder da extinta e polêmica banda Planet Hemp, D2 foi preso após um show em Brasília e puxou oito dias de xilindró, acusado de apologia da maconha. O artista me concedeu essa entrevista descontraída, no saguão de um hotel da Capital Federal. A conversa gira em torno de baseados, Cannabis Cup, Amsterdã e... ah, sim! já ia me esquecendo… ele falou também sobre música (risos), MST, eleições para presidente e otras cositas más. Confira.

Qual sua opinião sobre a qualidade da maconha brasileira?
MARCELO D2 – Aqui não tem a boa mesmo. Em toda a Europa, e principalmente na Califórnia, o fumo é bem tratado, faz menos mal para o pulmão. No Brasil, as pessoas fumam amônia que os traficantes colocam para disfarçar da polícia, fumam um monte de merda. A não ser em Pernambuco, que tem aquele bagulho soltinho, mas que é bem fraquinho.

Fale sobre a experiência de participar de uma Cannabis Cup (torneio anual realizado em Amsterdã, que elege o melhor beck do mundo) na Holanda.
MARCELO D2 – A Cannabis Cup é uma parada muito séria. Existe uma indústria de cannabis no mundo inteiro. O Fernando Gabeira até tentou trazer sementes, que depois foram apreendidas. Um absurdo. O Planet Hemp tocou no torneio de 1997. Durante o dia rolam encontros de fabricantes de sabão em pó, de roupas, de papel, tudo feito de cânhamo. Acontecem também debates, em que as pessoas contam suas experiências, contam como é a repressão policial em seus países. E à noite rolam as festas, shows, a bagunça mesmo. Gente do mundo todo se reúne para a degustação. Fomos a convite da revista Trip, para olhar como era. Várias paradas acontecendo ao mesmo tempo, em toda a cidade. Foi muito maneiro.

Você acredita que a opinião pública no Brasil está mostrando uma maior aceitação em relação ao tema “maconha”?
MARCELO D2 – Com certeza. De uns anos pra cá, mudou pra caramba. Antigamente, se você fosse falar de maconha, tinha que falar bem baixinho, não era uma palavra normal. Hoje em dia as pessoas estão mais abertas, mas por outro lado, é tudo muito de onda também. Ninguém entende porra nenhuma do assunto, ninguém tem uma opinião própria formada, ninguém pesquisa muito sobre o tema. As pesquisas mostram uma oscilação. Agora 60% estão a favor e 40% estão contra, depois o contrário, saca? O debate sobre a legalização tem evoluído muito. O que ocorre é que somos um país de Terceiro Mundo. Aqui no Brasil o governo nunca vai tomar a decisão de legalizar a maconha. Não temos nenhum governante que tenha peito para tomar uma decisão dessas. A opinião pública é forjada e esses caras só tomariam uma decisão assim depois que a França, Inglaterra ou Estados Unidos tomassem.

Por falar nisso, você tem candidato a presidente para as próximas eleições?
MARCELO D2 – Não. Eu não voto há muito tempo. Eu só votarei no dia em que pintar um candidato forte de verdade. Por enquanto está ruim, só tem bundão.

Houve um show em que você apareceu enrolado a uma bandeira do Movimento dos Trabalhadores-Sem-Terra. O que você acha da atitude do MST, ao invadir prédios públicos e fazendas?
MARCELO D2 – É errado invadir e destruir. Mas é um movimento pacífico e sério pra caramba. Poucos países do mundo têm movimentos sérios como o MST. Eu visto a camisa literalmente porque é o povo lutando por sua fatia no bolo.

Você declarou na revista Playboy que já roubou muito toca-fitas. Você não teme que isso possa influenciar negativamente os fãs adolescentes?
MARCELO D2 – Eu estava falando sobre minha vida. Cada um deve saber o que faz da sua. Se o cara começar a fumar maconha só porque o D2 fuma, se o cara começar a dar o cu porque o Clodovil dá, o cara é um bosta. É gente assim que entra em cinema dando tiro em todo mundo, que toca fogo em índio. Eu decidi quais caminhos eu devo seguir, mas eu não posso me responsabilizar pela atitude de outras pessoas. Não estou aqui para ser um mensageiro da verdade, só estou fazendo um som e falando o que penso.

Você também afirmou na Playboy que jamais fumou crack…
MARCELO D2 – É mentira… fumei sim (risos).

E heroína?
MARCELO D2 – Já cheirei. Não tomei "nos canos" porque tenho medo de agulha. Usei em São Paulo e Amsterdã. Em são Paulo foi com aqueles beatniks velhos e loucos. Foi uma heroína branca, asiática.

Quando o Planet Hemp ficou preso por oito dias em Brasília, rolou algum baseadinho ou vocês ficaram só na fissura?
MARCELO D2 – Ficamos os oito dias na fissura mesmo, cara. Não deu pra rolar nada, a gente tava muito tenso. O único pensamento era sair dali o mais rápido possível. Aliás, eu senti mais falta da cerveja que do baseado.

Chega de drogas, vamos falar de música… cite cinco discos que considera fundamentais. E o que tem escutado?
MARCELO D2 – O primeiro do Wu Tang Clan, o primeiro do De La Soul, o Paul’s Boutique e o Raising Hell, dos Beastie Boys e Booggiedown Productions. Esses cinco discos não podem faltar numa coleção que se preze. Eu escuto muita coisa antiga: jazz, funk, reggae, samba, bossa nova. Mas o que mais ouço é hip hop mesmo.

Como você avalia o rap e o hip hop brasileiros?
MARCELO D2 – Eu acho que o rap nacional tem que tomar identidade. Os Racionais MC’s são muito bons, mas todas as bandas estão copiando. O Mano Brow mesmo fala isso. Você vai a Fortaleza ou a Maceió e os caras dizem: “cerrto mano. É nois na fita, tá ligado?" (imita com sotaque de paulista). Outra coisa que falta no hip hop brasileiro é passar um pouco de cultura para o povo. Pra mim, o hip hop é pegar ônibus, pichar muro e ir trabalhar. O rap é a trilha sonora, o break é a dança, o grafite é a arte. Assim como o samba antigo, o hip hop tenta elevar o moral das pessoas. Quando um moleque de 16, 17 anos não sabe que caminho deve tomar, é nessa hora que a música rap entra com a mensagem de “levante a cabeça e siga em frente que você vencerá. Mas isso não significa dar conselhos, que tá por fora. Expor uma opinião própria, tudo bem. A mensagem é: “vamos tocar o terror, pois a gente é mais forte que eles”.


Qual sua opinião sobre a distribuição de músicas em Mp3, via internet?
MARCELO D2 – É muita hipocrisia um multimilionário de uma gravadora reclamar dessa questão. Burlou um pouco a lei, eu já acho maneiro. É uma forma diferente e democrática do som chegar ao ouvido das pessoas. A gravadora é que tem que se preocupar com essa porra, eu não quero nem saber.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A paz do inventor da dinamite


Por Sandro Neiva

O Prêmio Nobel da Paz foi conquistado no último dia 9 de outubro pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. O próprio presidente se disse surpreso e admitiu não ter um histórico que prove sua luta pela paz.

Mas deixemos Obama pra depois e vamos fazer algumas considerações acerca do grande protagonista da festa. Poucas pessoas sabem quem realmente foi Nobel. Nascido na Suécia em 1883, Alfred Nobel foi um químico milionário, inventor da dinamite. Durante experimentos com nitroglicerina, houve uma explosão acidental e o corpo de seu irmão Emil se espatifou pelos ares. Todavia, como sabemos, o invento foi um sucesso e disseminou-se rapidamente mundo afora.

Provavelmente por sentimento de culpa ou vaidade exacerbada, Nobel deixou instalada em sua terra natal, uma usina de hipocrisia e presunção: a Fundação que leva seu nome - e que premia anualmente, com seus milhões de libras, euros, dólares e coroas, investidos na Bolsa de Valores de Estocolmo, - os bonachões mundiais da física, química, literatura etc.

Dizem as más línguas que o “Mercador da Morte” – como Nobel era chamado pela imprensa da época - não incluiu o prêmio para as ciências matemáticas porque sua esposa havia lhe colocado um par de chifres com um matemático.

Que o presidente da nação que mais produz guerras na história moderna tenha faturado 1 milhão de euros com o prêmio Nobel da Paz é uma piada mórbida e uma agressão. E daí, que venha a doar o dinheiro a instituições de caridade?

Atitude de verdade quem demonstrou foi o filósofo francês Jean Paul Sartre, que, ao ser agraciado com o prêmio Nobel de Literatura, em 1964, recusou-o prontamente. Segundo Sartre, "nenhum intelectual pode ser transformado em instituição".

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Pequenas igrejas, Grandes negócios




Por Sandro Neiva

Consultava, por acaso, a lista telefônica de Brasília e com espanto percebi, naquelas letrinhas miúdas, que as páginas 199 até a 201, são reservadas, exclusivamente, a nomes e telefones de igrejas. Por quase todos os cantos da Capital Federal, existe uma seita, um centro, uma congregação ou uma paróquia qualquer.

Da caatinga para o cerrado, foram muitos os retirantes iluminados, que assim como Antônio Conselheiro em Canudos, construiram barracões precários e passaram a cobrar ingressos para a entrada do Reino Dos Céus.

O negócio cresceu, os retirantes passaram a vir de todos os cantos do país e do mundo, os barracões transformaram-se em templos luxuosos e os investidores ficaram ricos. Hoje, cada uma dessas empresas, que proliferam a cada dia, ostentam nomes mais lunáticos e inusitados que os outros concorrentes.

Separei aqui alguns dos nomes mais significativos:

Mitra arquidiocesana; Movimento Eureka; Oratório Soldado; Padres Estigmatinos; Nossa Senhora Consolata; Sukyo Mahikari; Pronto Socorro Espiritual; Igreja Maanaim; Menino Jesus de Praga; Centro Espírita Cantinho da Fé; Santos dos Últimos Dias; Comunidade Evangélica Boa Semente; Nossa Senhora das Dores; Nova Canaã; Maranata; Sociedade Maçônica Filhos de Salomão; Sindicato dos teólogos confederativos; Congregação dos Religiosos Terciários; Vale da Benção; Manancial de vida; Evangelho Quadrangular; Vale do Amanhecer; Exército de Salvação; Igreja Santo Cura D’ars; Igreja da Vinha; Perfect Liberty; Lectorium Rosicrucianum; Lumen Dei; Ministério Cristão da Restauração; Shalon; Amor sem fronteiras; Sarca Ardente; Assembléia dos primogênitos; Nossa Senhora da Medalha Milagrosa; Apocalipse Pentecostal; Sara nossa terra; Centro Budista Tibetano; Bom Jesus dos migrantes; Maná Novo; Mil vezes Imaculada…

Não estaria na hora de uma intervenção federal a essa lucrativa indústria da histeria e da alienação?


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A imunda fraternidade dos crocodilos sorridentes




Por Sandro Neiva

Brasília segue sua trajetória de cidade esquizóide. Um apartamento de merda no Plano Piloto continua custando em torno de trezentos mil euros; os funcionários públicos continuam se digladiando por uma mesa com internet e impressora.



Os jovens da classe média continuam se adestrando para entrar no TCU ou na Procuradoria da República, dando continuidade também às grandes mamatas e aos salários fabulosos de seus familiares e padrinhos.



Os homens públicos - que passam apenas três ou quatro dias da semana na cidade - continuam inflacionando não apenas o mercado da prostituição e dos táxis, mas também o mercado do casamento e do transporte coletivo.



E assim segue a vida no planalto central. Como diz a letra da velha canção punk: “na imunda fraternidade dos crocodilos sorridentes”.


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

KID VINYL, o senhor do showbizz





Por Sandro Neiva

Cantor, crítico musical, radialista, VJ da MTV, diretor artístico internacional da gravadora Trama – o cara já fez de tudo no mundo da música. Em 1979, foi um dos principais divulgadores do movimento punk no país, quando era locutor da extinta rádio Excelsior FM. Ná década de 1980, fez sucesso em todo o Brasil com os hits “Eu Sou Boy” e “Tic Nervoso”, de sua banda Magazine. Hoje, Aos 53 anos, KID VINYL é uma lenda do showbizz brasileiro, espécie de enciclopédia musical, especialista nas artimanhas do meio. Ele me concedeu esta entrevista em São Paulo, na sede da gravadora Trama – uma das poucas que consegue sobreviver ao MP3/discos piratas e cujo dono é João Marcelo Bôscoli, filho de Elis Regina.


Que tipo de música não entraria na Trama?

KID VINYL – Desde o início a gente decidiu que grupos de pagodeiros tipo Fundo de Quintal e uma série de outros que vieram bater à nossa porta não entraria na Trama. Com o devido respeito aos caras, mas não entram na nossa gravadora. Por quê? Porque é modismo. Então, não é legal, não nos interessa, pois tudo que vira modismo dentro da música brasileira – como pagode e axé – a gente não lança. Se não tem a ver com nossa filosofia, não lançamos de jeito nenhum. Não precisamos nos vender dessa maneira e entrar nesse mercado sujo, eu diria, dessa coisa exclusivamente comercial que as grandes gravadoras ditam.

A Trama também atua no mercado estrangeiro, não é?
KID VINYL – Sim. Nós temos levado a música brasileira ao exterior e a recepção tem sido excelente. Nossos lançamentos estão sendo muito bem aceitos lá fora. Às vezes, até melhor do que aqui, eu diria. O Max de Castro, por exemplo, que é um artista do nosso cast, recentemente foi matéria de capa da revista Time.


O que há de lenda e realidade a respeito do jabá, aquele famoso dinheirinho que as gravadoras distribuem às rádios para que elas veiculem determinados artistas?
KID VINYL – Na verdade, a prática do jabá é absolutamente comum e é controlada pelas rádios em geral. Hoje, a rádio é um espaço comercial. Uma grande emissora oferece espaços comerciais e está sempre aberta às grandes gravadoras, que chegam e compram o pacote com tantas execuções. O preço é combinado e é emitida até mesmo uma nota fiscal, se for preciso. Quer dizer, é um dinheiro considerado como verba lícita, porque eles vendem como espaço comercial. Ninguém pode processar os caras porque acima de tudo, o rádio é um veículo de comércio, então, eles estão sempre juridicamente amparados. Cada minuto é vendável, e ele pode ser preenchido com música, com comercial ou qualquer outra coisa. Não há como criticar muito o jabá, pois é uma maneira que as gravadoras têm de anunciar sua música, que também acaba sendo um produto como qualquer outro. Digamos que não é a maneira correta, mas infelizmente a coisa funciona dessa maneira.


Na sua opinião, qual o caminho que a música brasileira irá trilhar nos próximos 10 anos?
KID VINYL – A fusão de música brasileira com elementos de música eletrônica, apesar de ser incipiente e estar apenas engatinhando é muito saudável, é um parâmetro para o que deve vir por aí nos próximos anos. Eu acredito também muito na geração que veio após o Chico César: O Zeca Baleiro, o Lenine, mas estes são nomes que já se consolidaram. A Trama está lançando uma geração na qual eu acredito bastante, mas é lógico que existem outros nomes interessantes, muita gente que nem foi descoberta pelas gravadoras, mas com propostas muito boas.


Quais os lançamentos internacionais da Trama na linha de rock?
KID VINYL – Lançamos MC5, Bad Brains, New York Dolls, Johnny Thunders, e vamos soltar ainda outras bandas fundamentais para quem entende e gosta de rock alternativo. Todo esse material vem do catálogo do selo Americano Rior, que é especializado em resgate de sons raros, gravações ao vivo, obscuras. Damos uma peneirada no catálogo para ver o que vale a pena e lançamos alguns nomes.


Em tempos de troca de arquivos gratuitos de mp3 via internet, qual a vendagem mínima que um artista deve alcançar para que um lançamento dê retorno comercial?
KID VINYL – Para um disco internacional, se vender mil cópias já vale a pena, já paga os gastos do lançamento. Para um disco nacional, depende muito do quanto é gasto na produção. Se for gasto, por exemplo, 50 mil reais para se fazer o disco, tem que se vender pelo menos 10 mil cópias para se atingir o chamado breaking even, que é o equilíbrio, a vendagem minima necessária para ser viável comercialmente.


Você acredita que a juventude atual está mais aberta a novos sons que no passado?
KID VINYL – Eu não sei. Eu gostaria que realmente estivesse mais aberta. É lógico que depende muito da formação musical de cada pessoa, mas às vezes penso que a molecada deveria se informar um pouco mais. Apesar de terem internet e ultra-celulares, parece haver um certo comodismo. Todos querem soar como o Green Day e o Offspring, mas poucos conhecem o trabalho dos Mutantes, entendeu? Talvez a culpa não seja só deles, pois não existe uma imprensa musical mais ativa, não há tantos veículos ativos e alternativos que transmitam memória musical, que pudesse mexer com a cabeça deles.


Faça uma breve avaliação do cenário roqueiro no Brasil.
KID VINYL – Acho a cena do rock um pouco dispersa no nosso país. Existem muitos nomes legais e eu sinto falta de essas bandas estarem mais expostas à grande mídia. Há uma carência de sons alternativos no mainstream. No fim, acaba-se ouvindo sempre a mesma coisa ou aquilo que chega das rádios, que é um produto que já chega pasteurizado e massificado. Daí a importância de festivais como o Abril Pro Rock, em Recife e o Porão do Rock, em Brasília, dentre outros. Se a cena do rock alternativo conseguisse se expor mais à mídia como a música eletrônica consegue, a coisa funcionaria melhor.