quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Sorria, você está sendo manipulado!




Por Sandro Neiva

Assistimos - meio embasbacados e atordoados - ao triunfo absoluto da máquina política sobre nossas mentes, nossos desejos e nosso próprio tempo. De acordo com a má fé das regras pré-estabelecidas pelos políticos, pelas religiões e pela imprensa, experimentamos a falsificação de nossas paixões.

Enquanto estávamos bêbados ou hipnotizados, o Estado se travestia de benevolência. Fez-de protetor dos oprimidos, deu voltas e rodeios, maquiou-se, passou batom nos lábios, purpurina nos olhos, siliconou os seios, auto denominou-se liberal, ético, progressista, cristão e defensor máximo dos direitos humanos. Tudo em nome de uma democracia platônica e fictícia.

Enquanto esbravejávamos, de pilequinho nos botecos, o monstro estatal concretizou a dominação. Sobreviveu a todas as maldições da turba desarmada, a todos os discursos libertários, a todas as greves e idealizações revolucionárias. No fundo, o mesmo impostor brutal de sempre.

E não arredou um passo. Não apenas sobreviveu, mas reatualizou seus truques de dominação e se fez mais Onipotente, derrotando e escravizando-nos de maneira absoluta.

Quer uma prova de nossa escravidão? Lembre-se que somos OBRIGADOS a pagar impostos e tributos. Estou sendo radical? Como assim? Esqueceu-se da água, luz, telefone, condomínio, Imposto de Renda, ISS (como autônomo e como funcionário), CPMF, IPTU, IPVA, CRP, estacionamento, plano de saúde e até licença para exercer a profissão? Faça as contas e verifique o que isso representa no seu pífio rendimento anual.

Sem mencionar os impostos indexados à comida, à gasolina, aos remédios, aos livros e até ao caixão mortuário que te levará desta vida para sempre. Sorria, você está sendo manipulado!



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Zine Oficial lança coletânea com 24 bandas do underground brasiliense





Por Sandro Neiva

O Zine Oficial, capitaneado por Tomaz André, juntamente com o vocalista Felipe CDC, - em nobre e inovadora empreitada, - lançaram um CDr-coletânea com 24 bandas autorais do Distrito Federal e Entorno. Atitudes orgânicas e positivas como essa oxigenam a cena local do bom e velho rock’n’roll, unem o universo underground e garantem a diversão e satisfação pessoal dos historicamente oprimidos. As próprias bandas bancaram a gravação do disco, investindo 50 reais cada uma delas, para a compra de CDs virgens, gastos com serigrafia e masterização, realizados no ME Estúdio, em Taguatinga. Diversos estilos do rock estão presentes na coletânea, que está sendo vendida ao preço simbólico de DOIS REAIS. É isso mesmo! Para adquirir o disco você desembolsa apenas duas lascas, menos que uma cerveja. Lindo demais, né? A arte gráfica também merece destaque, com fotos e release de todas as bandas, além do desenho de um roqueiro regando um vaso que floresce música. Confesso que cheguei a ficar arrepiado quando escutei a faixa três, rockão da banda The Morffus. Mas tem vários outros sons legais. A dupla dinâmica Tomaz André e Felipe CDC ainda promete o Volume II. Parabéns e long live rock!

Entre em contato com zineoficial@gmail.com ou www.zineoficial.com.br e garanta seu disco.

Bandas que participaram da coletânea:

1) Barbarella
2) Luiza Fria
3) The Morffus
4) Trampa
5) Kábula
6) Faces do Caos
7) Canibais
8) Aversão
9) X-granito
10) Os Maltrapilhos
11) Prisão Civil
12) Perigo ao Poder
13) Totem
14) Tekila Hell
15) Black Buldog
16) Into the Dust
17) 7 Pele
18) Murro no Olho
19) Podrera
20) Mob Ape
21) Seconds Of Noise
22) Bruto
23) Moretools
24) Device

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Seu colega quer sua cabeça




Por Sandro Neiva

Tão ou até mais grave que o desemprego que assola o Brasil, é o assédio moral no ambiente de trabalho. O acosso ou assédio moral refere-se à pressão, à desqualificação, à perseguição, ao amedrontamento, às ameaças e ao abuso de poder que trabalhadores sofrem diariamente nos locais de trabalho.

Seja no âmbito dos serviços públicos, instituições de ensino ou das empresas privadas, o problema é grave; não é sequer mencionado pelos políticos e pode causar uma série de doenças pisicossomáticas nas vítimas, tais como a depressão e até suicídios.

O tema tem sido tratado com rigor pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que lançou no Canadá a publicação “Seu colega quer sua cabeça”. No texto, são identificadas as principais características desses agressores:

"... seres brutais, que desde a infância cultivam a inveja, destruindo a dignidade dos demais, voltando sua tirania para pessoas emocionalmente frágeis e que não podem permitir-se deixar o trabalho; empregados ambiciosos e incompetentes, que apropriam-se das ideias de colegas que consideram rivais, com a finalidade de conseguir ascensão ou se auto-promoverem intelectualmente perante os chefes; geralmente ocultam seus erros difamando companheiros de trabalho".

Esse tipo de conflito ocorre não somente entre chefes e subalternos, mas entre os funcionários de modo geral e tem transformado os ambientes de trabalho em verdadeiros focos de neurose coletiva e destruição mútua, comprometendo, além da saúde e da realização pessoal, os próprios serviços.

O silêncio e a negligência tornam o problema cada vez mais grave e fora de controle. Apesar das ações estéreis dos Departamentos de Recursos Humanos e do blá-blá-blá dos administradores, não há no Brasil nenhum critério para a ocupação de cargos de chefia e grande parte dos funcionários são desviados de suas verdadeiras funções.

Urge que os governos estabeleçam programas de prevenção contra o problema. Seria importante se os candidatos, no meio de tanto palavreado inútil, conseguissem lançar o olhar para bem mais além, quando se referem ao empreguismo - pois o problema não está apenas no desemprego, mas também no emprego pelo qual o trabalhador, em troca de uma remuneração miserável, é obrigado a submeter-se a humilhações, relações falsas e condições irracionais.



sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Entrevista com a banda Ratos de Porão (SP)


Por Sandro Neiva

Julho de 2001. RATOS DE PORÃO - a banda punk mais agressiva do planeta - toca em Brasília para cerca de 40 mil pessoas, no Festival Porão do Rock. Na época, a formação era Gordo, Jão, Boka e Fralda. Doente e mais obeso do que nunca, o vocalista João Gordo precisou de uma injeção no nervo ciático antes de subir ao palco. Na execução de várias músicas, teve que cantar sentado em uma cadeira. Lembro como fiquei impressionado com a pança, os pés inchados e a aparência geral de um dos caras que me ensinaram a gostar de punk rock. Cheguei a pensar que ele estava perto de bater os Ked’s. Como sabemos, João Gordo reduziu o estômago, virou papai e tornou-se figurinha fácil na TV. O grupo lançou em 2009 o documentário “Guidable, a verdadeira história do Ratos de Porão” e segue em frente.

Havia umas 40 mil pessoas no show desta noite. Vocês gostam de tocar para grandes plateias?
JOÃO GORDO – Eu gosto mais de tocar em lugarzinho pequeno, tá ligado? Soa mais aconchegante, é mais legal. Festival grande assim é foda, cara. Fica muito separado a coisa. É o público lá longe e você cá encimão. Tudo muito longe. Quer dizer, é legal porque é muita gente. Mas não é muito aconchegante, tá ligado? Quando o público fica mais próximo a coisa é muito mais louca.
BOKA – O Ratos de Porão é uma banda acostumada a tocar em qualquer lugar, cara. Já tocamos várias vezes em grandes festivais e tocamos também no chão, sem palco. Com o Ratos não tem disso. Tocamos para milhares de pessoas ou para um público composto apenas por fãs, como outras vezes, no Teatro Garagem, por exemplo, aqui mesmo, em Brasília. Tecnicamente, eu prefiro tocar em locais fechados, mais perto do público e de toda a energia. Essa energia se perde um pouco quando o show é ao ar livre. O ideal mesmo, em termos de equilíbrio, é tocar para um público de 500 pessoas. Mas também tanto faz. É nossa vida, nosso trabalho. Sempre tem graça.

Fralda, é verdade que o seu primeiro show com o RDP foi no exterior? como entrou na banda?
FRALDA – Meu primeiro show com o Ratos foi lá na gringa, em Portugal. Foi num festival para 32 mil pessoas em que tocaram The Cure, Therapy, Sonic Youth e uma pá de bandas. Eu ainda não havia feito nenhum show com a banda no Brasil e já peguei logo uma turnê de oito shows no exterior. Na verdade, meus dez primeiros shows foram meio desastre, meio foda, tá ligado? Só mais na frente eu fui pegando o jeito e me entrosando.

Boka, você entrou na banda em 1991, logo depois do lançamento do disco Anarkophobia. Foi uma parada que deu certo, não?
BOKA – Eu já era amigo dos caras desde a época do Psycho Possessor, minha banda anterior. A gente fazia umas Jam Sessions juntos. Eu me integrei legal. Não é qualquer cara que tem a manha de passar 70 dias espremido num furgão, como já fizemos várias vezes, nas turnês pelo exterior. Tem que haver muita paciência e respeito e a gente consegue lidar bem com isso.

O Guerra Civil Canibal foi o primeiro disco totalmente independente do Ratos, e saiu pela Pecúlio Discos (cujo proprietário é o baterista Boka). Mas saiu também um compacto pela Monstro Discos. Como foi a negociação?
BOKA – Sim. Esse disco saiu pela Pecúlio em CD e um compacto de 7 polegadas pela Monstro Discos, de Goiânia. É um pessoal que já tem tradição em vinis coloridos e é super gente fina. Chegamos pra eles e falamos: “o disco está em suas mãos”. Rolou tudo de forma tranquila. Foi também uma forma que encontramos pra não termos tanto trabalho.

O RDP foi uma das primeiras bandas a adionar o Hardcore ao Metal, criando o chamado Crossover. Isso nem sempre é bem visto por fãs mais conservadores. O que vocês pensam a respeito?
JOÃO GORDO – O RDP foi a primeira banda a fazer isso. Aqui no Brasil, foi a primeira. Quanto a esse tipo de pensamento, esses caras que se fodam, meu! Pau no cu desses punk’s radicais metidos a donos do mundo. São uns idiotas que pensam que sabem tudo, meu!
BOKA – Nós evoluimos musicalmente. Acrescentamos vários elementos ao nosso som, não só o simples hardcore, mas nunca perdendo aquela pegada característica. Sempre estivemos antenados no underground. Cara, quem gosta da banda é porque realmente se identifica. Nós não estamos pedindo pra que ninguém goste do Ratos de Porão. Mas conosco rola algo engraçado: em nossos shows não vai ninguém de curioso. Só tem fã de verdade em todos os shows. Somos uma banda 100% independente que consegue certo espaço na mídia, que outras bandas da mesma linhagem não conseguem. Isso gera inveja.

Quantas vezes o Ratos de Porão excursionou pela Europa e Estados Unidos?
GORDO – Ah, não sei. Um monte de vezes, cara! Desde 1990 a gente viaja para o exterior. Nos Estados Unidos é diferente pra caramba. É outra história, meu. Os shows lá são de fato o underground porque os caras querem ser de fato o underground. É show no chão, cara. Não tem produção nenhuma de palco, nada. Boteco, saca? Muito louco isso.
BOKA – Perdi a conta de quantas turnês a banda já fez no exterior. Na Itália nós tocamos em um monte de squats. Mas lá esses locais são enormes, para cerca de 700 pessoas. O punk’s italianos e franceses são uns pirados. Nos Estados Unidos tocamos no CBGB.

Vocês também tocaram em lugares obscuros como Eslovênia e Croácia. Qual o lugar que acharam mais louco?
JOÃO GORDO – A gente tocou muito numas ilhas e foi muito louco. Ilhas tipo Maiorca, Ilhas Canárias, Teneriff, Eslovênia, Croácia, República Tcheca. Uns lugares assim, bem difíceis de ir, tá ligado? Pra gente é bem bizarro esse tipo de lugar, saca? Nós temos fãs no mundo inteiro, meu. Na Itália, França, Portugal e Espanha tocamos em centros culturais enormes. Na França e Itália tinha coisa bem punk mesmo.
BOKA – Cada país tem uma onda diferente, mas o leste europeu é muito fodido. Os fãs são muito loucos. Não no sentido violento, mas no sentido de amar a banda.

Dizem que em alguns países como a República Tcheca, os punk’s cantam as músicas do Ratos de Porão em portugês. Qual a reação de vocês ao observarem isso?
BOKA – É lógico que quando vimos aquilo pela primeira vez foi fantástico, muito engraçado, mas hoje achamos até normal.
JOÃO GORDO – Eles sabem cantar o refrão, né cara? É legal e meio que compensador, entende? Você saber que uns caras do outro lado do mundo estão cantando uma música que você fez lá na sexta-série. Isso é do caralho, meu!

Como é o esquema de produção dessas turnês? As gravadoras já bancaram alguma coisa?
BOKA – Gravadora nenhuma jamais bancou nenhuma excursão nossa para o exterior. Juntamos grana para as passagens aéreas, acertamos tudo, alugamos uma van, e nós mesmos agendamos os shows. Nos viramos como podemos. Cartão de crédito, cheque emprestado, qualquer coisa vale. Nós damos nosso jeito.
JOÃO GORDO – Gravadora não banca nada, véio. Só tem pilantra nesse meio. Só o Boka é honesto.

Quanto custa uma turnê dessas? Dá pra sobrar algum?
JOÃO GORDO – Sobrar, sobra. Tem muito gasto. É gasto pra caralho, meu. Mas quem manja de turnê mesmo é o Boka aqui, cara. O Boka é o empresário do rock. Baterista, pai de família, empresário bem sucedido, ex-maconheiro e surfista, ainda por cima.
BOKA – Uma turnê assim custa em torno de 30 a 45 mil. Apesar dos gastos, dá pra sobrar alguma coisa.

Vocês já passaram pela Roadrunner, Cogumelo, Baratos & Afins, Paradoxx. Afinal, gravadora não vale mesmo a pena para uma banda como o Ratos?
BOKA – A parceria com outras gravadoras é muito mais interessante pra nós porque temos nosso trabalho distribuído mundialmente com total controle. A Alternative Tentacles (selo de Jello Biafra, ex-Dead Kennedys) lançará nosso ultimo disco em vinil de 10 polegadas, que é um formato superlegal e diferente. A Paradoxx foi a única gravadora que fez um bom trabalho de distribuição e os caras são mais sérios. Na Roadrunner foi foda. Eles impuseram que nossos discos também deveriam sair com letras em inglês. Na minha opinião, o Just Another Crime é nosso pior trabalho. Eu tinha pouco tempo de banda e havia pressão da gravadora. A única música desse disco que a gente leva em shows é SuposiCollor, que também é a única em português.
JÃO – Gravadora grande é uma puta mafia, meu.

Vocês devem encontrar muita gente louca nessas turnês. Rolam muitas drogas e groupies?
BOKA – Se você quiser, rola com certeza. Eu, como baterista, preciso de preparo físico e concentração. Não dá mais pra ficar zoando tanto, como antigamente. Estou mais quieto. Quanto às garotas, nós nem somos uma banda que tenha o perfil para esse tipo de coisa. Eu sou casado há muitos anos, o Jão também. No início da década de 1990 todos nós estávamos muito mais abertos a tudo isso.

Depois de tanto tempo tocando e viajando juntos, já deve ter rolado umas tretas e discussões, certo?
BOKA – É que nem uma família, cara. É lógico que rolam discussões. Num dia está quebrando o pau, no outro se arrepende, se respeita e está tudo bem de novo. É complicado. Não é para qualquer um, cara. Tem que haver paciência, saber respeitar a opinião e o direito do outro.

Jão, você que é o único membro da formação original, me diz, quais as diferenças básicas da cena punk que surgiu em São Paulo em 1978 e o que rola hoje em dia?
JÃO – Como cena musical, ainda existe e é bem forte. Agora, como movimento, eu diria que é meio dispersivo. Tudo é muito equivocado, saca? Não há união para se construir um lance melhor. Sei lá, às vezes é mais fácil ficar falando mal do Ratos de Porão, por exemplo, do que tentar mudar alguma coisa.

Em 1983 as bandas punk’s de São Paulo, incluindo o RDP, foram tocar no Circo Voador, Rio de Janeiro. Esse episódio repesentou a primeira tentativa de organização do movimento em nível nacional. Gostaria que você comentasse o episódio.
JÃO – Eu era muito moleque, estava indo ao Rio pela primeira vez e fiquei muito louco. Fazia um puta calor de rachar, o Circo Voador estava lotado e eu pirei, né, velho? Na época, a gente não tinha noção do lance histórico, que aquilo iria se tornar um acontecimento histórico.

Tenho a impressão que a banda está mais clean. Todos pararam de fumar cigarro, né?
BOKA – Com certeza. Estamos mais sossegados. O Gordo não está muito bem de saúde. Eu particularmente, não gosto de cigarro.

Jão, li na internet um artigo chamado “o movimento punk no Brasil”, assinado pelos Ratos de Porão. O texto termina com a frase: “Os punk’s voltaram para a periferia como todo filho pródigo volta ao lar”. Pode comentar a respeito?
JÃO – Eu sempre morei na periferia. Então eu não estou voltando porque nunca saí, né, velho? (risos). Moro na região de Pirituba, que é periferia de São Paulo.



quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A fútil felicidade dos emergentes




Por Sandro Neiva

Corretores, atravessadores, donos de imobiliárias e outros especuladores deste ramo profissional estão eufóricos na Capital da República. O futuro Setor Noroeste — apesar de ser ainda uma enorme área de cerrado virgem, já bate recordes no preço do metro quadrado.

Ali, no novo bairro que está sendo construído para uma suposta elite, todos os apartamentos são de três ou quatro quartos, com área entre 127m² e 318m². O imóvel mais barato custou R$ 942 mil e o mais caro — uma cobertura privativa — saiu por R$ 2,5 milhões. Tudo foi comercializado em uma semana pela Brasal Incorporadora e pela Lopes Royal Empreendimentos.


Lúcio Costa — a eterna vaca sagrada da urbanística — previu o Setor Noroeste no documento “Brasília Revisitada”, de 1987. Desde então, os empresários do mercado imobiliário estão nas esquinas com mapas, folders, ilustrações futuristas, fichas de inscrição e claro, a tabela de preços.

O preço dos imóveis – mais alto que nos arredores de Paris ou na orla de Maceió - já seria uma afronta à inteligência de qualquer ser pensante. Mas ninguém dá um pio. Todos estão felizes por poder comprar o seu apartamentozinho de merda em 20 ou 30 anos, mesmo que depois tenham que dar o cu nas esquinas para poder pagar as prestações e o condomínio.

Gatunos vitimados pela gatunagem; presas fáceis de qualquer máfia que venha a prometer-lhes que, da noite para o dia, irão ascender ao pódio da classe média alta, com direito a status de novo-rico. Sacam o celular do bolso do paletó e contam a novidade para os amigos. Estão radiantes. Isto é a felicidade para esse tipo de idiota.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Mais um imposto absurdo



Por Sandro Neiva



O Poder em Brasília segue delirante. Não bastasse a proposta para o ressurgimento da famigerada CPMF, o governo federal desta vez pretende criar um imposto sobre os livros. Por meio da Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (CIDE), pretende-se impor um sobrepreço que incide sobre editoras, distribuidoras e livrarias. O efeito é óbvio: livros mais caros ao consumidor.


O deboche embutido na medida governamental é explícito. De acordo com a proposta, o dinheiro arrecadado seria usado, acreditem vocês, em programas de incentivo à leitura! Incoerência e cretinice absurdas. Ora, qual seria maior incentivo à leitura que baratear o preço dos livros?


Não é preciso muita astúcia para perceber que o hábito da leitura – já tão combalido no Brasil atual - diminuirá, ao invés de aumentar, se depender dos burocratas do planalto central. Num país de milhões de analfabetos, no qual o próprio presidente não é muito afeito à leitura, literalmente paga caro aquele que ainda ousa ler.


Por falar no presidente, na semana passada Lula causou espanto nas rodas intelectuais da corte ao afirmar que estaria lendo “Leite Derramado”, último romance de Chico Buarque de Holanda. Nada mais apropriado. O leite derramou faz tempo.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

O enxofre do diabo




Por Sandro Neiva



Há dez anos o Brasil era o maior produtor mundial de açúcar e mais da metade da produção era destinada ao mercado exterior. Hoje, nem a Europa nem os Estados Unidos querem saber do açúcar brasileiro. O motivo? quantidades excessivas de enxofre, consideradas não compatíveis com a saúde dos consumidores europeus e norteamericanos.


Algumas indústrias já começaram a abandonar a utilização de enxofre no processo de branqueamento do açúcar, substituindo-o pelo ozônio. Além da garantia de um produto mais saudável - tanto para consumidores quanto para as pessoas envolvidas na fabricação -, o açúcar ozonizado alcança um maior valor de mercado.


É intrigante o descaso governamental a respeito do enxofre – elemento químico venenoso indicado pela letra S e pelo número atômico 16. Na antiguidade, os chineses utilizavam o enxofre na produção da pólvora. Mais tarde foi condensado na cabeça dos palitos de fósforo, usado no processo de clareamento do açúcar e até na fabricação de baterias.


Assim como os mineradores e as lideranças governamentais têm conhecimento do poder letal do arsênio na poeira nossa de cada dia, os usineiros e as tais lideranças governamentais também sabem do poder letal do enxofre no cafezinho nosso de cada dia. É muito provável que saibam também que altas concentrações desse produto vulcânico em reação com a água dos pulmões provocam a formação de ácido sulfúrico, causando hemorragias que podem mandar o sujeito para o inferno. A propósito, seria esta a origem da crendice folclórico-popular de que o inferno e o diabo federiam a enxofre?


Basta fazermos um exercício de coerência dedutiva e não é difícil imaginar o perigo que deve estar embutido nos molhos, enlatados e demais porcarias à venda em qualquer esquina. Pelo menos, a partir de agora, sabemos que além do excesso de açúcar que as garçonetes energúmenas costumam colocar nos nossos sucos e cafés, há também um excesso criminoso de enxofre. E o pior, com a conivência de órgãos estatais como a Anvisa - Agência Nacional de Vigilância Sanitária.


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Nós contra nós mesmos












Por Sandro Neiva

Sobrevivemos em um conjunto de imagens com as quais somos empurrados a identificar-nos. Atuamos cada vez menos por nós mesmos e cada vez mais em função de abstrações que nos dirigem segundo as leis do comércio e do mercado. Nós contra nós mesmos, cordeiros domesticados prontos para sermos etiquetados. Seres ruminantes, que renunciam ao prazer de viver realmente de acordo com as próprias convicções. Neste cenário desolador, cada um representa aquilo que não vive e cada um vive falsamente aquilo que não é. É por isso que nos dias atuais - o papel e a função de cada indivíduo em promover o desenvolvimento da sociedade como um todo – não passa de uma enorme mentira deslavada, de um cinismo sem fim.



quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A imbecilização generalizada do horário nobre




Por Sandro Neiva

A televisão é o veículo da imbecilização generalizada e da mentira oficializada. Ela não somente nos afasta dos problemas reais da vida como também empurra todas as pessoas a identificarem-se com o vil, o mesquinho e o irreal.

Entorpecidos pelo tal horário nobre, colocamo-nos abstratamente no lugar de um chefe de Estado, uma estrela pop ou uma vítima de estupro. Enfim, reagimos como se não fôssemos nós, mas outra pessoa.

As imagens dos telejornais, novelas e comerciais que nos dominam, representam, acima de qualquer coisa, o triunfo daquilo que nós NÃO somos. É a vitória daquilo que sufoca nossos anseios e nos distancia de nós mesmos.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O espetáculo da estupidificação coletiva









Por Sandro Neiva

A educação das massas no Brasil é ministrada por uma dúzia de apresentadores e apresentadoras de televisão. Não é difícil perceber uma linguagem subterrânea na boca e nos trejeitos dessas hienas maquiadas, a serviço da moral vigente e do status quo.

Enquanto segue em cartaz o espetáculo da estupidificação coletiva, o efeito colateral mostra-se devastador e torna-se visível nos preconceitos, gestos condicionados e hábitos de consumo pequeno-burgueses, que permeiam nossa vida cotidiana.

Explicitamos nossa estupidez no trabalho, no trânsito e em todas as situações nas quais exercemos uma atividade que não foi posta a serviço de nosso bel prazer de nossa soberania pessoal.




terça-feira, 20 de outubro de 2009

MARCELO D2, queimando tudo até a última ponta!




Por Sandro Neiva

Marcelo Maldonado Gomes Peixoto, ou simplesmente Marcelo D2, é hoje considerado um dos maiores nomes da música nacional. Absolutamente integrado às frescuragens típicas do mainstream, o artista vai ao Faustão, ao Gugu, faz turnê internacional e seu rap-samba-rock é tilha sonora de novela global. Mas a vida nem sempre foi uma deliciosa larica. Em 1997, quando ainda era líder da extinta e polêmica banda Planet Hemp, D2 foi preso após um show em Brasília e puxou oito dias de xilindró, acusado de apologia da maconha. O artista me concedeu essa entrevista descontraída, no saguão de um hotel da Capital Federal. A conversa gira em torno de baseados, Cannabis Cup, Amsterdã e... ah, sim! já ia me esquecendo… ele falou também sobre música (risos), MST, eleições para presidente e otras cositas más. Confira.

Qual sua opinião sobre a qualidade da maconha brasileira?
MARCELO D2 – Aqui não tem a boa mesmo. Em toda a Europa, e principalmente na Califórnia, o fumo é bem tratado, faz menos mal para o pulmão. No Brasil, as pessoas fumam amônia que os traficantes colocam para disfarçar da polícia, fumam um monte de merda. A não ser em Pernambuco, que tem aquele bagulho soltinho, mas que é bem fraquinho.

Fale sobre a experiência de participar de uma Cannabis Cup (torneio anual realizado em Amsterdã, que elege o melhor beck do mundo) na Holanda.
MARCELO D2 – A Cannabis Cup é uma parada muito séria. Existe uma indústria de cannabis no mundo inteiro. O Fernando Gabeira até tentou trazer sementes, que depois foram apreendidas. Um absurdo. O Planet Hemp tocou no torneio de 1997. Durante o dia rolam encontros de fabricantes de sabão em pó, de roupas, de papel, tudo feito de cânhamo. Acontecem também debates, em que as pessoas contam suas experiências, contam como é a repressão policial em seus países. E à noite rolam as festas, shows, a bagunça mesmo. Gente do mundo todo se reúne para a degustação. Fomos a convite da revista Trip, para olhar como era. Várias paradas acontecendo ao mesmo tempo, em toda a cidade. Foi muito maneiro.

Você acredita que a opinião pública no Brasil está mostrando uma maior aceitação em relação ao tema “maconha”?
MARCELO D2 – Com certeza. De uns anos pra cá, mudou pra caramba. Antigamente, se você fosse falar de maconha, tinha que falar bem baixinho, não era uma palavra normal. Hoje em dia as pessoas estão mais abertas, mas por outro lado, é tudo muito de onda também. Ninguém entende porra nenhuma do assunto, ninguém tem uma opinião própria formada, ninguém pesquisa muito sobre o tema. As pesquisas mostram uma oscilação. Agora 60% estão a favor e 40% estão contra, depois o contrário, saca? O debate sobre a legalização tem evoluído muito. O que ocorre é que somos um país de Terceiro Mundo. Aqui no Brasil o governo nunca vai tomar a decisão de legalizar a maconha. Não temos nenhum governante que tenha peito para tomar uma decisão dessas. A opinião pública é forjada e esses caras só tomariam uma decisão assim depois que a França, Inglaterra ou Estados Unidos tomassem.

Por falar nisso, você tem candidato a presidente para as próximas eleições?
MARCELO D2 – Não. Eu não voto há muito tempo. Eu só votarei no dia em que pintar um candidato forte de verdade. Por enquanto está ruim, só tem bundão.

Houve um show em que você apareceu enrolado a uma bandeira do Movimento dos Trabalhadores-Sem-Terra. O que você acha da atitude do MST, ao invadir prédios públicos e fazendas?
MARCELO D2 – É errado invadir e destruir. Mas é um movimento pacífico e sério pra caramba. Poucos países do mundo têm movimentos sérios como o MST. Eu visto a camisa literalmente porque é o povo lutando por sua fatia no bolo.

Você declarou na revista Playboy que já roubou muito toca-fitas. Você não teme que isso possa influenciar negativamente os fãs adolescentes?
MARCELO D2 – Eu estava falando sobre minha vida. Cada um deve saber o que faz da sua. Se o cara começar a fumar maconha só porque o D2 fuma, se o cara começar a dar o cu porque o Clodovil dá, o cara é um bosta. É gente assim que entra em cinema dando tiro em todo mundo, que toca fogo em índio. Eu decidi quais caminhos eu devo seguir, mas eu não posso me responsabilizar pela atitude de outras pessoas. Não estou aqui para ser um mensageiro da verdade, só estou fazendo um som e falando o que penso.

Você também afirmou na Playboy que jamais fumou crack…
MARCELO D2 – É mentira… fumei sim (risos).

E heroína?
MARCELO D2 – Já cheirei. Não tomei "nos canos" porque tenho medo de agulha. Usei em São Paulo e Amsterdã. Em são Paulo foi com aqueles beatniks velhos e loucos. Foi uma heroína branca, asiática.

Quando o Planet Hemp ficou preso por oito dias em Brasília, rolou algum baseadinho ou vocês ficaram só na fissura?
MARCELO D2 – Ficamos os oito dias na fissura mesmo, cara. Não deu pra rolar nada, a gente tava muito tenso. O único pensamento era sair dali o mais rápido possível. Aliás, eu senti mais falta da cerveja que do baseado.

Chega de drogas, vamos falar de música… cite cinco discos que considera fundamentais. E o que tem escutado?
MARCELO D2 – O primeiro do Wu Tang Clan, o primeiro do De La Soul, o Paul’s Boutique e o Raising Hell, dos Beastie Boys e Booggiedown Productions. Esses cinco discos não podem faltar numa coleção que se preze. Eu escuto muita coisa antiga: jazz, funk, reggae, samba, bossa nova. Mas o que mais ouço é hip hop mesmo.

Como você avalia o rap e o hip hop brasileiros?
MARCELO D2 – Eu acho que o rap nacional tem que tomar identidade. Os Racionais MC’s são muito bons, mas todas as bandas estão copiando. O Mano Brow mesmo fala isso. Você vai a Fortaleza ou a Maceió e os caras dizem: “cerrto mano. É nois na fita, tá ligado?" (imita com sotaque de paulista). Outra coisa que falta no hip hop brasileiro é passar um pouco de cultura para o povo. Pra mim, o hip hop é pegar ônibus, pichar muro e ir trabalhar. O rap é a trilha sonora, o break é a dança, o grafite é a arte. Assim como o samba antigo, o hip hop tenta elevar o moral das pessoas. Quando um moleque de 16, 17 anos não sabe que caminho deve tomar, é nessa hora que a música rap entra com a mensagem de “levante a cabeça e siga em frente que você vencerá. Mas isso não significa dar conselhos, que tá por fora. Expor uma opinião própria, tudo bem. A mensagem é: “vamos tocar o terror, pois a gente é mais forte que eles”.


Qual sua opinião sobre a distribuição de músicas em Mp3, via internet?
MARCELO D2 – É muita hipocrisia um multimilionário de uma gravadora reclamar dessa questão. Burlou um pouco a lei, eu já acho maneiro. É uma forma diferente e democrática do som chegar ao ouvido das pessoas. A gravadora é que tem que se preocupar com essa porra, eu não quero nem saber.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A paz do inventor da dinamite


Por Sandro Neiva

O Prêmio Nobel da Paz foi conquistado no último dia 9 de outubro pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. O próprio presidente se disse surpreso e admitiu não ter um histórico que prove sua luta pela paz.

Mas deixemos Obama pra depois e vamos fazer algumas considerações acerca do grande protagonista da festa. Poucas pessoas sabem quem realmente foi Nobel. Nascido na Suécia em 1883, Alfred Nobel foi um químico milionário, inventor da dinamite. Durante experimentos com nitroglicerina, houve uma explosão acidental e o corpo de seu irmão Emil se espatifou pelos ares. Todavia, como sabemos, o invento foi um sucesso e disseminou-se rapidamente mundo afora.

Provavelmente por sentimento de culpa ou vaidade exacerbada, Nobel deixou instalada em sua terra natal, uma usina de hipocrisia e presunção: a Fundação que leva seu nome - e que premia anualmente, com seus milhões de libras, euros, dólares e coroas, investidos na Bolsa de Valores de Estocolmo, - os bonachões mundiais da física, química, literatura etc.

Dizem as más línguas que o “Mercador da Morte” – como Nobel era chamado pela imprensa da época - não incluiu o prêmio para as ciências matemáticas porque sua esposa havia lhe colocado um par de chifres com um matemático.

Que o presidente da nação que mais produz guerras na história moderna tenha faturado 1 milhão de euros com o prêmio Nobel da Paz é uma piada mórbida e uma agressão. E daí, que venha a doar o dinheiro a instituições de caridade?

Atitude de verdade quem demonstrou foi o filósofo francês Jean Paul Sartre, que, ao ser agraciado com o prêmio Nobel de Literatura, em 1964, recusou-o prontamente. Segundo Sartre, "nenhum intelectual pode ser transformado em instituição".