sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Pequenas igrejas, Grandes negócios




Por Sandro Neiva

Consultava, por acaso, a lista telefônica de Brasília e com espanto percebi, naquelas letrinhas miúdas, que as páginas 199 até a 201, são reservadas, exclusivamente, a nomes e telefones de igrejas. Por quase todos os cantos da Capital Federal, existe uma seita, um centro, uma congregação ou uma paróquia qualquer.

Da caatinga para o cerrado, foram muitos os retirantes iluminados, que assim como Antônio Conselheiro em Canudos, construiram barracões precários e passaram a cobrar ingressos para a entrada do Reino Dos Céus.

O negócio cresceu, os retirantes passaram a vir de todos os cantos do país e do mundo, os barracões transformaram-se em templos luxuosos e os investidores ficaram ricos. Hoje, cada uma dessas empresas, que proliferam a cada dia, ostentam nomes mais lunáticos e inusitados que os outros concorrentes.

Separei aqui alguns dos nomes mais significativos:

Mitra arquidiocesana; Movimento Eureka; Oratório Soldado; Padres Estigmatinos; Nossa Senhora Consolata; Sukyo Mahikari; Pronto Socorro Espiritual; Igreja Maanaim; Menino Jesus de Praga; Centro Espírita Cantinho da Fé; Santos dos Últimos Dias; Comunidade Evangélica Boa Semente; Nossa Senhora das Dores; Nova Canaã; Maranata; Sociedade Maçônica Filhos de Salomão; Sindicato dos teólogos confederativos; Congregação dos Religiosos Terciários; Vale da Benção; Manancial de vida; Evangelho Quadrangular; Vale do Amanhecer; Exército de Salvação; Igreja Santo Cura D’ars; Igreja da Vinha; Perfect Liberty; Lectorium Rosicrucianum; Lumen Dei; Ministério Cristão da Restauração; Shalon; Amor sem fronteiras; Sarca Ardente; Assembléia dos primogênitos; Nossa Senhora da Medalha Milagrosa; Apocalipse Pentecostal; Sara nossa terra; Centro Budista Tibetano; Bom Jesus dos migrantes; Maná Novo; Mil vezes Imaculada…

Não estaria na hora de uma intervenção federal a essa lucrativa indústria da histeria e da alienação?


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A imunda fraternidade dos crocodilos sorridentes




Por Sandro Neiva

Brasília segue sua trajetória de cidade esquizóide. Um apartamento de merda no Plano Piloto continua custando em torno de trezentos mil euros; os funcionários públicos continuam se digladiando por uma mesa com internet e impressora.



Os jovens da classe média continuam se adestrando para entrar no TCU ou na Procuradoria da República, dando continuidade também às grandes mamatas e aos salários fabulosos de seus familiares e padrinhos.



Os homens públicos - que passam apenas três ou quatro dias da semana na cidade - continuam inflacionando não apenas o mercado da prostituição e dos táxis, mas também o mercado do casamento e do transporte coletivo.



E assim segue a vida no planalto central. Como diz a letra da velha canção punk: “na imunda fraternidade dos crocodilos sorridentes”.


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

KID VINYL, o senhor do showbizz





Por Sandro Neiva

Cantor, crítico musical, radialista, VJ da MTV, diretor artístico internacional da gravadora Trama – o cara já fez de tudo no mundo da música. Em 1979, foi um dos principais divulgadores do movimento punk no país, quando era locutor da extinta rádio Excelsior FM. Ná década de 1980, fez sucesso em todo o Brasil com os hits “Eu Sou Boy” e “Tic Nervoso”, de sua banda Magazine. Hoje, Aos 53 anos, KID VINYL é uma lenda do showbizz brasileiro, espécie de enciclopédia musical, especialista nas artimanhas do meio. Ele me concedeu esta entrevista em São Paulo, na sede da gravadora Trama – uma das poucas que consegue sobreviver ao MP3/discos piratas e cujo dono é João Marcelo Bôscoli, filho de Elis Regina.


Que tipo de música não entraria na Trama?

KID VINYL – Desde o início a gente decidiu que grupos de pagodeiros tipo Fundo de Quintal e uma série de outros que vieram bater à nossa porta não entraria na Trama. Com o devido respeito aos caras, mas não entram na nossa gravadora. Por quê? Porque é modismo. Então, não é legal, não nos interessa, pois tudo que vira modismo dentro da música brasileira – como pagode e axé – a gente não lança. Se não tem a ver com nossa filosofia, não lançamos de jeito nenhum. Não precisamos nos vender dessa maneira e entrar nesse mercado sujo, eu diria, dessa coisa exclusivamente comercial que as grandes gravadoras ditam.

A Trama também atua no mercado estrangeiro, não é?
KID VINYL – Sim. Nós temos levado a música brasileira ao exterior e a recepção tem sido excelente. Nossos lançamentos estão sendo muito bem aceitos lá fora. Às vezes, até melhor do que aqui, eu diria. O Max de Castro, por exemplo, que é um artista do nosso cast, recentemente foi matéria de capa da revista Time.


O que há de lenda e realidade a respeito do jabá, aquele famoso dinheirinho que as gravadoras distribuem às rádios para que elas veiculem determinados artistas?
KID VINYL – Na verdade, a prática do jabá é absolutamente comum e é controlada pelas rádios em geral. Hoje, a rádio é um espaço comercial. Uma grande emissora oferece espaços comerciais e está sempre aberta às grandes gravadoras, que chegam e compram o pacote com tantas execuções. O preço é combinado e é emitida até mesmo uma nota fiscal, se for preciso. Quer dizer, é um dinheiro considerado como verba lícita, porque eles vendem como espaço comercial. Ninguém pode processar os caras porque acima de tudo, o rádio é um veículo de comércio, então, eles estão sempre juridicamente amparados. Cada minuto é vendável, e ele pode ser preenchido com música, com comercial ou qualquer outra coisa. Não há como criticar muito o jabá, pois é uma maneira que as gravadoras têm de anunciar sua música, que também acaba sendo um produto como qualquer outro. Digamos que não é a maneira correta, mas infelizmente a coisa funciona dessa maneira.


Na sua opinião, qual o caminho que a música brasileira irá trilhar nos próximos 10 anos?
KID VINYL – A fusão de música brasileira com elementos de música eletrônica, apesar de ser incipiente e estar apenas engatinhando é muito saudável, é um parâmetro para o que deve vir por aí nos próximos anos. Eu acredito também muito na geração que veio após o Chico César: O Zeca Baleiro, o Lenine, mas estes são nomes que já se consolidaram. A Trama está lançando uma geração na qual eu acredito bastante, mas é lógico que existem outros nomes interessantes, muita gente que nem foi descoberta pelas gravadoras, mas com propostas muito boas.


Quais os lançamentos internacionais da Trama na linha de rock?
KID VINYL – Lançamos MC5, Bad Brains, New York Dolls, Johnny Thunders, e vamos soltar ainda outras bandas fundamentais para quem entende e gosta de rock alternativo. Todo esse material vem do catálogo do selo Americano Rior, que é especializado em resgate de sons raros, gravações ao vivo, obscuras. Damos uma peneirada no catálogo para ver o que vale a pena e lançamos alguns nomes.


Em tempos de troca de arquivos gratuitos de mp3 via internet, qual a vendagem mínima que um artista deve alcançar para que um lançamento dê retorno comercial?
KID VINYL – Para um disco internacional, se vender mil cópias já vale a pena, já paga os gastos do lançamento. Para um disco nacional, depende muito do quanto é gasto na produção. Se for gasto, por exemplo, 50 mil reais para se fazer o disco, tem que se vender pelo menos 10 mil cópias para se atingir o chamado breaking even, que é o equilíbrio, a vendagem minima necessária para ser viável comercialmente.


Você acredita que a juventude atual está mais aberta a novos sons que no passado?
KID VINYL – Eu não sei. Eu gostaria que realmente estivesse mais aberta. É lógico que depende muito da formação musical de cada pessoa, mas às vezes penso que a molecada deveria se informar um pouco mais. Apesar de terem internet e ultra-celulares, parece haver um certo comodismo. Todos querem soar como o Green Day e o Offspring, mas poucos conhecem o trabalho dos Mutantes, entendeu? Talvez a culpa não seja só deles, pois não existe uma imprensa musical mais ativa, não há tantos veículos ativos e alternativos que transmitam memória musical, que pudesse mexer com a cabeça deles.


Faça uma breve avaliação do cenário roqueiro no Brasil.
KID VINYL – Acho a cena do rock um pouco dispersa no nosso país. Existem muitos nomes legais e eu sinto falta de essas bandas estarem mais expostas à grande mídia. Há uma carência de sons alternativos no mainstream. No fim, acaba-se ouvindo sempre a mesma coisa ou aquilo que chega das rádios, que é um produto que já chega pasteurizado e massificado. Daí a importância de festivais como o Abril Pro Rock, em Recife e o Porão do Rock, em Brasília, dentre outros. Se a cena do rock alternativo conseguisse se expor mais à mídia como a música eletrônica consegue, a coisa funcionaria melhor.



terça-feira, 13 de outubro de 2009

Vossa Excelência




Por Sandro Neiva

Sabe aquelas inúmeras vezes na vida em que dá uma vontade danada de soltar um palavrão bem cabeludo pra descarregar a raiva acumulada? Sempre que quiser dar uma pisoteada no âmago de qualquer político, ladrão, sequestrador ou outro bandido qualquer, esqueça os insultos. Não o chame de "filho disto", "filho daquilo" e muito menos o mande "tomar-não-sei-lá-onde". Não perca tempo descarregando o seu precioso repertório de impropérios, pois ele vai rir na sua cara. Seja abrangente e visceral: chame-o simplesmente de VOSSA EXCELÊNCIA!


A democracia da Hiena

Por Sandro Neiva

Ao zapear aleatoreamente o controle remoto, vi sintonizado na tela o canal da TV Senado. Os lingüistas aprenderiam muito se observassem o uso que aqui se faz da linguagem e passassem a mapear o território esquizóide que há entre a retórica e a ação.

Uma hiena calva e gorda pede a palavra. Rodeios lingüísticos e firulas proverbiais para defender o indefensável. Citações de pensadores ilustres saem como meretrizes de sua boca. Vossa Excelência pra cá, Vossa Excelência pra lá. É a isso que chamam de ética?

A discussão foi estupenda. Comparado, o samba-do-crioulo-doido seria fichinha. Mas mesmo assim, no final, as hienas miseráveis foram unânimes nos aplausos calorosos e em afirmar que é com esses monólogos neuróticos e com essa verborréia pseudo-intelectualóide que se constrói a tal democracia.


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Muita estrela pra pouca constelação


Por Sandro Neiva


Mesmo espremido pela arquitetura excludente da ficção urbanóide engendrada por Niemayer e Lúcio Costa – viver aqui em Brasília até que tem lá suas vantagens: quase todos os dias é possível assistir a shows diferentes na Esplanada do Poder.


Hoje são os estudantes da UNE emputecidos com a fraude do ENEM. Ontem foram os monocultures que devastam o cerrado com suas ceifadeiras agrícolas. Amanhã podem ser as mulheres dos militares ou os simpatizantes do uso de células-tronco;


Na próxima semana serão os que combatem o aborto, a eutanásia e os que defendem a libertinagem dos padres. No próximo mês virão os criminosos xiitas do MST ou pode ser a vez dos que lucram com as vidas despedaçadas dos meninos de rua. Mas talvez seja apenas mais uma caravana de vereadores e prefeitos, em busca de mais leite na têta;


Depois chega a Proclamação da República e certamente o circo de quinta categoria será novamente armado e encenado. Numa quarta-feira-qualquer aparecem os funcionários de cassinos e na mesma tarde os professores ameaçam entrar em greve de fome. E então já é quinta-feira e para os parlamentares já é o fim do expediente semanal, dia de mais um vôo para seus estados de origem. Daí a corte vira uma calmaria só.


Curiosamente, na década e meia que habito este deserto, nunca vi uma passeata de banqueiros, nem de comerciantes, nem de juízes, muito menos de políticos. Aqui em Brasília também nunca tive conhecimento de protesto organizado por agiotas nem por donos de imobiliárias. Nunca ouvi falar em manifestação das pessoas que contraíram câncer por causa da ação das mineradoras transnacionais nem em protesto de jornalistas que tiveram seus diplomas jogados no lixo pelo Supremo Tribunal Federal.




terça-feira, 6 de outubro de 2009

Anvisa proíbe uso de agrotóxico amplamente usado no Brasil


Por Sandro Neiva

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou o banimento de uso, em todo país, do ingrediente ativo endossulfam, agrotóxico utilizado no cultivo de café, cana-de-açúcar e soja. A indicação foi publicada por meio de Consulta Pública, em setembro de 2009 e teve por base estudos que apontam para graves danos de saúde relacionados ao uso da substância.

A iniciativa da Anvisa não deixa de representar um avanço, mas o que fazer com o metamidofós, o fosmete, o tiran, o triclorfom, a parationa metílica, o carbofurano, o forato, o paraquate, o acetato… ? Todas essas substâncias são amplamente empregadas em plantações de tomate ou batata e há décadas estão proibidas na Europa, Estados Unidos e diversos outros países. Mas continuam sendo usadas livremente nas hortas e lavouras do Brasil, apesar do potencial mortífero.

Que tal uma bela salada de tomates recheados à moda mexicana? Ou talvez uma deliciosa sobremesa de morangos da vovó? Quem sabe umas folhas de alface para a pele do bebê? Análises feitas pela própria Anvisa em 2007 mostraram que 40% do tomate, morango e alface vendidos nos supermercados brasileiros estavam com dosagens de agrotóxicos acima do limite considerado seguro.

Retrocesso, Perversidade e Incongruência

Em 2008, acatando ação movida pelo sindicato das indústrias de defensivos agrícolas (Sindag), a Justiça brasileira proibiu a Anvisa de prosseguir os estudos que verificavam a segurança de ingredientes ativos em 99 marcas de agrotóxicos usados no país. A decisão, do juiz Waldemar Claudio de Carvalho, da 13ª Vara Federal do Distrito Federal, representa um retrocesso para o país e uma perversidade para com as pessoas. O que deveria ser um caso para a Polícia Federal, transforma-se-se em batalha judicial na República da adulteração generalizada. Se a ciência descobre que determinadas substâncias são nocivas à saúde - seja de quem as consome, seja de quem trabalha diretamente com elas - é uma incongruência reavaliá-las por força de uma liminar.

Que o governo é ineficiente e relapso não há dúvidas, mas há também o lobby, a pressão e o poder econômico dos grandes monocultures e principalmente da indústria multinacional de agrotóxicos, com sua maldita cadeia de distribuição de herbicidas, fungicidas, pesticidas, formicidas e todas essas “cidas” que alimentam o agronegócio, adoecem a plebe, agridem o planeta e se sobrepõem aos interesses coletivos.