sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Cachaça Paracatulina e o novo Código Florestal



Por Sandro Neiva

No último final de semana estive a passeio em minha cidade natal, Paracatu (MG), a 200 quilômetros de Brasília. Como de costume, toda vez que passo por lá, gosto de ir diretamente à residência de uma tradicional família do lugar, a mesma que produz a afamada aguardente de rapadura Paracatulina, a fim de comprar um pouco da cachaça de excelência, iguaria disputada na Capital da República.

No quarto bucólico, repleto de garrafas de pinga, está sentado um renomado médico da cidade. Coisa normal, está ali para tomar uns tragos, apesar de não haver nenhum copo na mesa que possa denunciá-lo. É educado comigo. Primeiro pergunta sobre o filme “Ouro de Sangue”, que realizei em Paracatu há dois anos. Na época, ele se mostrou impressionado com o documentário, que mostra os efeitos letais de uma mineradora canadense que atua a céu aberto, em perímetro urbano e dispara poeira tóxica vinte e quatro horas por dia nas casas da histórica cidade mineira. Mostrou-se impressionado, mas como um dos profissionais de saúde mais respeitados de Paracatu, se negou, à época, a dar qualquer depoimento para o filme, ou seja, optou pelo silêncio e omissão.

Mas vamos voltar à história inicial. Enquanto uma mulher embalava minhas duas garrafas de cachaça, respondi ao médico (que também é fazendeiro) que eu havia acabado de produzir um novo filme, chamado “Cerrado em Pé”. Contei que era outro documentário de denúncia, desta vez contra o modelo nefasto do agronegócio, implantado no Brasil há décadas e que atua sob uma lógica devastadora, destruindo o Cerrado e a Amazônia sem dó nem piedade.

O médico ruralista, agora com os olhos arregalados, resmunga secamente: - “Que bom”. Iniciou então um eloquente discurso em defesa do novo Código Florestal. Faltou dizer que Aldo Rebelo é um santo. Talvez estimulado pelos vapores etílicos da Paracatulina, sua veia de ruralista ativou-se rapidamente e a retórica das elites aristocráticas prevaleceu na prosa do homem. Argumentei que esse novo Código Florestal é um desastre para o meio ambiente pois reduz pela metade as Áreas de Proteção como as matas ciliares à beira de rios. Argumentei que o deputado Aldo Rebelo é um comunista que defende interesses ruralistas e tal fato beira o surrealismo político. Também disse a ele que caso o Código seja mesmo aprovado, isso representaria um retrocesso de pelo menos 40 anos na legislação ambiental brasileira pois prevê excesso de autonomia para os estados e anistia para os latifundiários criminosos que promoveram desmatamento em massa, o que, aliás, estaria ferindo a Constituição do Brasil no que tange aos direitos coletivos e bens públicos.

Gentil, o médico convidou-me a conhecer suas terras qualquer dia desses. Só em pensar no assunto, fui tomado por leves tremores de forma súbita (o que, sem dúvida, ele diagnosticaria como algum distúrbio clínico-patológico-emocional-endógeno) mas, cinicamente, agradeci pela gentileza do convite. Paguei a conta, catei minha cachaça, despedi-me do "doutor" de forma cordial e educada - como minha boa mãe me ensinou -, desejei-lhe tudo de bom e enfim, fui embora, munido de dois tubos de Paracatulina e pensando sozinho com meus botões... pensando que as mentes retrógradas do corporativismo feudal são as grandes responsáveis pela destruição de nossas florestas, pelo envenenamento crônico de nossos rios e pela trágica redução de nossa biodiversidade.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Cólera "Somos Vivos" – Brasília/1996 (rare material)

Por Sandro Neiva


Já vou logo avisando: apesar da precária qualidade técnica de som e imagem, esse material do Cólera é muito raro. Trata-se de uma gravação de 1996, feita em VHS pelo cinegrafista pioneiro do underground brasiliense, Jaílson Lagartixa, de Valparaízo. Esse cara já fez muito pela cena rock do DF e Entorno, filmou dezenas de shows e gigs legais e a Pervitin Filmes retirou da gaveta essa gravação do Cólera tocando no extinto Buraco do Rock, que funcionava perto da Rodoviária do Plano Piloto (ao lado do Touring). Na extensa plateia, vários amigos da cena local (Julião e Gilvani são facilmente identificáveis). No palco, uma banda experiente toca inúmeros clássicos punk, como “Somos Vivos”, faixa do álbum Pela Paz em Todo Mundo.


quarta-feira, 28 de julho de 2010

Pervitin Filmes no Jornal de Brasília

Clique abaixo e leia a reportagem do JORNAL DE BRASÍLIA sobre o Festival Retina Rock, organizado pelo ZINE OFICIAL e realizado no último final de semana, no Blues Pub, em Taguatinga.

Na foto, a editora de vídeos SHEILA REZENDE, da Pervitin Filmes, exibe o troféu oferecido pelo Festival. O videoclipe "Ouro de Sangue" (com a banda Murro no Olho) foi o mais votado pelo público. É nóis!



segunda-feira, 26 de julho de 2010

Videoclipe da Pervitin Filmes é premiado no Festival Retina Rock


Por Sandro Neiva

O último final de semana foi especial para a PERVITIN FILMES. A produtora foi premiada no Festival Retina Rock, organizado por Fellipe CDC e Tomaz André, a dupla dinâmica do Zine Oficial. O videoclipe “Ouro de Sangue”(com a banda Murro no Olho) foi o mais votado pelo público na segunda noite do evento, realizada no Blues Pub, em Taguatinga, no domingo (25).

A Pervitin faturou o ZOscar, um troféu muito legal oferecido pela organização. Eu e o cinegrafista Arcanjo Daniel estivemos presentes e pudemos curtir uma noite com muito rock, cerveja e pipoca.

Gostei muito da apresentação da banda de heavy metal Hell Bound, que faz um som oitentista na linha do Metal Church, Accept e Manowar. Destaque para o vocalista Ronaldo, dono de um poderosíssimo agudo, a la Rob Halford, do Judas Priest.

De quebra, ainda saiu uma entrevista comigo no Zine Oficial e uma reportagem no Jornal de Brasília, o que, obviamente, me deixou muito feliz. Muito obrigado mesmo e longa vida ao Retina Rock.

No SESC do Gama, no último sábado (24), o curta “Dona Negra”(Pervitin Filmes; 2008) foi exibido na mostra Tecendo Vídeos, organizada pelo multifacetado artista Walter Sarça.

É isso aí! Viva o rock, viva o cinema documentário e viva as pessoas que fazem tudo isso acontecer.


domingo, 18 de julho de 2010

Cerrado em Pé - um documentário com Josué Faustino de Souza


Por Sandro Neiva


Josué Faustino de Souza é artesão e vive em Teresina de Goiás, na Chapada dos Veadeiros. Ao mesmo tempo em que utiliza fibras do Cerrado como matéria-prima de seu ganha-pão, desenvolve um trabalho de replantio de espécies raras e nativas do bioma. Não possui escolaridade, mas sua relação de nobreza com o meio ambiente e o discurso arrebatador em defesa do Cerrado deixou perplexa uma plateia composta de gestores públicos, gerentes de ONGs, políticos, mestrandos, doutorandos, ativistas ambientais, jornalistas, antropólogos, universitários e diretores ministeriais do governo federal.


Assista ao curta de 7 minutos e 53 segundos:


quarta-feira, 7 de julho de 2010

Rattus- a nata do hardcore finlandês no Gama/DF em 2007

Por Sandro Neiva

Mais uma do Rattus, a lenda do hardcore finlandês. Ao final do show no Gama/DF em 2007, o vocalista e guitarrista da banda deu um breve depoimento em sua língua natal, que não entendo absolutamente nada. Punk's não morrem!



quarta-feira, 30 de junho de 2010

Radical Sem Dó (DF) - Hip-Hop Old School


O Radical Sem Dó é uma banda de rap das antigas, muito… mas muito legal mesmo! Liderada pelo loucão Natinho (Nonato Dente de Ouro), uma das figuras mais emblemáticas da cena underground brasiliense, o Radical foi formado em meados dos anos 1980.


Muita gente já passou pela banda: o Fat-Freak Ginão Perdiz, Grilo (ex-guitarrista do BSB-H), Dino Black, Frango Kaos (Galinha Preta), Fubá, DJ Chocolate e até a Verônica (nome carinhoso dado por Natinho à sua bateria eletrônica).


Natinho, pra quem não sabe, é proprietário da Kingdom Comics, a loja de camisetas alternativas mais bacana do Centro Cultural Underground Conic e uma das melhores do país.


Lembro do Natinho em 1986, vendendo camisetas do Detrito Federal na entrada de um show do Ratos de Porão, cantando as hoje clássicas “Garoto Digoró”, “Elianny” etc, louco e divertido da mesma forma. O cara é um poeta de rima certeira. Confira a pérola:

Eu fico diferente

quando vejo essa menina

A minha cara Cora

A cara dela Coralina

Radical Sem Dó é rap antes do Gangsta Rap, que acabou desgastando um pouco a fórmula do hip hop. Radical Sem Dó é rap na linha Beastie Boys, Public Enemy, Run DMC.

As letras são engraçadas, porém inteligentes e transitam pelo universo estranho do poeta Natinho. O imaginário doentio do Mestre-Ganja circula por Taguatinga e todas as Asas do Distrito Federal, causando estranhez no universo rap de Brasília e uma nuvem de fumaça canábica que sobe pelos ares.

Radical Sem Dó não pertence ao mundo da segregação voluntária, da treta gratuita, do assassinato a tiros, da pedra no cachimbo, da arma e sangue na favela.

Radical Sem Dó é pura atitude rock, cara! Natinho lembra um Perry Farrel (Jane’s Addiction) mais emaconhado.

O vídeo acima foi gravado em 2003, na cidade de Paracatu (MG).

Não sei o nome da música aqui interpretada somente por Natinho, Fubá e uma bateria eletrônica, mas sei um pedaço da letra:

Eu sou o Natinho

Que pinta camiseta

Que tem na cara

Um monte de careta

Que só não gosta

De nego que é otário.

Até que eu sou

Meio feliz

Porque eu sempre fiz

O que eu sempre quis

As pessoas tem os olhos muito grandes

Mas não conseguem enxergar direito

Assistem novelinhas

e morrem de preconceito

Eu sou o vocalista do Radical Sem Dó

E olho para todos que estiverem ao meu redor

Falo mal de quem quero bem

Falo bem de quem quero mal…



sexta-feira, 25 de junho de 2010

Suicidal Tendencies - "I Saw Your Mommy" (Live in Brasília/2008)


Por Sandro Neiva

Sempre fui um Suicidal Maniac. Escuto o som do SUICIDAL TENDENCIES desde a década de 1980. Fui ao primeiro show deles em Brasília, realizado no saudoso Gran CircoLar, ao lado da rodoviária do Plano Piloto, em 1997. Guardo com carinho a bandana oficial azul e tenho o nome da banda tatuado nas costas.

Assista aqui "I Saw Your Mommy", gravada no Porão do Rock de 2008. Suicyco!!

sábado, 19 de junho de 2010

Candidata do Partido Verde (PV) à Presidência fala sobre a mineração em Minas Gerais

Por Sandro Neiva

Numa coletiva de imprensa realizada na Universidade de Brasília (UnB) na última quinta-feira (17/06), perguntei à senadora e candidata à presidencia da República, Marina Silva, a respeito da mineração de ouro a céu aberto realizada em Minas Gerais e operada por empresas transnacionais, que deixam um rastro de poluição nas águas, no ar, nos solos e causam a desintegração de populações tradicionais.

Ela havia acabado de responder sobre a seleção brasilieira na Copa do Mundo e foi pega de surpresa com a pergunta difícil. Sua resposta, como eu já imaginava, foi vaga, superficial e pueril, apesar de politicamente correta. Nada que o Serra ou a Dilma não defenderiam. Falou em royalties mais elevados e fim de isenções tributárias para as mineradoras transnacionais. Parecia preocupada apenas com a questão financeira. Falou também que num encontro em Minas Gerais, havia defendido que seja repensado um novo modelo para a mineração, só não especificou que modelo seria esse e em que moldes. Também ficou muito presa ao que diz a legislação ambiental, como única forma de proteger as comunidades que sofrem os impactos socioambientais.

Enfim, às vésperas de uma eleição, a candidata do Partido Verde pareceu desconhecer os reais efeitos de uma exploração transnacional a céu aberto, que utiliza venenos químicos como o cianeto, fabrica barragens de rejeitos e latrinas tóxicas que se tornam passivos ambientais, empobrece e adoece povos que vivem próximos às lavras, especula suas terras e destrói sua cultura ― tudo em nome do “progresso” e
da geração de
emprego e renda. Triste Brasil!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

"Sex and Violence" - The Exploited em Brasília (2009)

Fãs do The Exploited sobem ao palco, em Brasília, para cantar "Sex and Violence" com a banda, em 2009.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Crucificados Pelo Sistema/Pobreza – RDP em Goiânia/2003

Por Sandro Neiva


Confira aqui mais dois sons do Ratos de Porão tocando em Goiânia no ano de 2003. As imagens beiram a psicodelia. As faixas são “Crucificados pelo Sistema” e “Pobreza”, clássicos do álbum Crucificados pelo Sistema, primeiro do RDP, primeiro disco individual de uma banda hardcore/punk da América Latina, lançado originalmente em 1984. Esse disco é tão fundamental que em 2009 saiu a edição comemorativa de 25 anos de seu lançamento, chamada de “Sistemados Pelo Crucifa”. Olhe a pobreza/olhe a fraqueza/olhe a pobreza/ desse mundo desumano.


terça-feira, 1 de junho de 2010

"Aos Fuzilados da CSN" - Garotos Podres em Brasília/2007

Por Sandro Neiva

Mais um som dos Garotos Podres no Festival Porão do Rock, em Brasília/DF (2007). A música é um ska-punk-oi e faz parte do álbum "Canções Para Ninar", lançado originalmente em 1993.

"Aos Fuzilados da CSN"

Aos que habitam
cortiços e favelas/e mesmo que acordados/pelas sirenes das fábricas/não deixam de sonhar/de ter esperanças.

Pois o futuro vos pertence!

Aos que carregam rosas/sem temer machucar as mãos/pois seu sangue não é azul/nem o verde do Dólar/mas vermelho/da fúria amordaçada/de um grito de liberdade/preso na garganta.

Pois o futuro vos pertence!

Fuzilados da CSN/assassinados no campo/torturados no DOPS/espancados na greve/
A cada passo/desta marcha/camponeses e operários/tombam homens fuzilados/
Mas por mais rosas que os poderosos matem/nunca conseguirão deter
a Primavera!


Pois o futuro vos pertence!